PT ainda faz de Aécio alvo principal

João Bosco Rabello

17 de fevereiro de 2014 | 17h00

O acúmulo de notícias negativas se não abalou o favoritismo eleitoral da presidente Dilma Rousseff,  já faz o governo e o PT raciocinarem realisticamente com a inevitabilidade de um segundo turno em 2014. A dissimulação desse diagnóstico já foi mais intensa e, hoje, os atores da candidatura oficial consideram mais que possível, provável, uma disputa mais dura.

Outro ponto que se extrai das declarações e do embate eleitoral ainda velado, por causa dos prazos legais para que as campanhas se tornem oficiais,  é o de que o candidato da oposição que o governo considera mais provável de ir ao segundo turno é o senador Aécio Neves.  Por isso, os ataques se concentram nele.

Não se desdenha a candidatura do governador Eduardo Campos, inclusive pelo gás que lhe empresta a ex-senadora Marina Silva, sua provável candidata a vice. Mas a pouca visibilidade não só do governador, mas de sua legenda, o PSB, proporcional à sua escassa capilaridade, favorecem o candidato do partido mais conhecido, o PSDB.

Aécio Neves se beneficia da polaridade que marca as eleições e governos brasileiros há duas décadas entre PT e PSDB. Sua pouca visibilidade pessoal é compensada pelo conhecimento de que concorre pelo partido de Fernando Henrique Cardoso, José Serra e outros de expressão nacional e regional. Campos tem apenas Marina Silva nesse papel multiplicador.

Se só esses elementos – ou mais -, sugerem ao PT que as chances de ser o PSDB o adversário do segundo turno são maiores, pouco importa. O partido ainda mantém os tucanos como o alvo prioritário das críticas, possivelmente porque a disputa pelo governo de São Paulo e a necessidade de reduzir a votação de Aécio em Minas, acaba unindo o mapa eleitoral.

A demonstração mais recente dessa perspectiva foi dada pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, em entrevista ao Estado domingo, em que claramente indicou Aécio como o principal oponente. Não só por concentrar nele as críticas, mas pelo afago ao governador de Pernambuco, que mereceu tratamento elogioso, acrescido da opinião de que ele apoiará Dilma no segundo turno.

A entrevista de Bernardo – que devolveu o humor em falta no mercado político -, trai duas preocupações: o eventual apoio de Campos ao tucano no segundo turno e os receios da influência da economia nas eleições. Quando diz que Aécio não tem qualificação para “salvar a economia”, admite implicitamente que ela não vai bem, já que precisa de salvação.

Quando desdenha do que chama a “turma da PUC”, que assessora o programa econômico do tucano, omite que são eles os “pais do Real”, que trouxe a estabilidade econômica. Bernardo joga estrategicamente com o avanço social dos governos Lula e Dilma para contrapor ao universo acadêmico da economia, cuja linguagem não chega ao cidadão comum.

Mantém assim o cenário mais interessante ao PT, que situa o PSDB como o partido conservador, de punhos de renda, em contraponto ao PT, cujos governos atuariam em linha direta com as genuínas expectativas populares. Não é bem assim, mas essa é a narrativa que favorece o seu partido.

O ministro também admite as dificuldades com o empresariado, retirando a questão da desconfiança da classificação de tese conspiratória da mídia, para propor com bom humor que mercado e governo discutam a relação. “Não adianta fazer beicinho”, o que se precisa é sentar e conversar, disse em recado direto aos que reclamam das diretrizes econômicas.

Tem-se nas afirmações de Bernardo o pensamento realista de governo e PT e, por consequência, uma linha que orientará o embate da campanha. Não deve passar em branco o registro irônico – e oportuno – feito aos tucanos que sublinham a diferença entre a economia com Lula e com Dilma. “Ué, eles vão fazer campanha para o Lula”? perguntou.

O comentário remete à campanha do PSDB de 2010 que, receosa da popularidade em alta do ex-presidente, não só evitou ataques ao seu governo, como acabou transformando-o em modelo virtuoso. Incluindo o ex-presidente  até no programa eleitoral gratuito.

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