PT ainda está na pauta do PSB

João Bosco Rabello

29 de setembro de 2014 | 17h59

A disputa interna no PSB, adiada para outubro, tem como pano de fundo a relação do partido com o PT, que precede a consolidação de Marina Silva como candidata à presidência da República.

O fim da aliança entre socialistas e petistas em Pernambuco, interrompida com a eleição de Geraldo Julio para a prefeitura do Recife, abriu caminho para a candidatura presidencial de Eduardo Campos, à época contestada por setores do PSB e causa da saída do governador Cid Gomes, do Ceará, e de seu irmão, Ciro, para o Pros.

O presidente em exercício do PSB, Roberto Amaral, foi um dos que se opuseram à candidatura de Campos, por considerá-la mais oportuna, estratégica e viável, em 2018. Amaral conviveu com a derrota de sua posição, mas não reviu sua convicção.

Isso mostra como o afastamento do PT foi uma posição que sobreviveu partidáriamente graças à liderança de Campos, que levou adiante o projeto, apesar do peso político das dissidências e do assédio permanente do ex-presidente Lula para que reavaliasse a decisão.

Sem Campos e diante da realidade de uma candidatura que se tornou competitiva com Marina Silva, o PSB trabalha em duas frentes internas – a que concilia posições com integrantes da Rede, a legenda em gestação que se aliou aos socialistas, e a que estabelecerá a convivência com o PT, em qualquer cenário – de vitória ou derrota.

É um enredo que se desenvolve de forma mais discreta que sua importância política, ofuscado pela temperatura da disputa presidencial. Em caso de vitória de Dilma Rousseff, provavelmente o projeto da Rede Sustentabilidade ressurgirá com a urgência que não terá se Marina for eleita.

O PSB estará pronto, nesse caso, para voltar à parceria com o PT, como sempre defendeu o presidente em exercício Roberto Amaral, que apressa a eleição interna para trabalhar nessa direção com a autoridade de titular do cargo.

O cenário proposto acima significará que a derrota de Marina determinará o fim da convivência entre Rede e PSB, cada qual ocupando o espaço político original, com graus diferentes de relacionamento com o governo, mas certamente em convívio amistoso, dada a afinidade ideológica.

Em cenário mais improvável, a seguir a fotografia das pesquisas hoje, de ida de Aécio Neves para o segundo turno, será testada a fidelidade de Marina Silva à meta de interromper o ciclo do PT no poder, assumido no anúncio da aliança com Eduardo Campos.

Derrotada no primeiro turno, a candidata do PSB e fundadora da Rede, terá força para impor o apoio do partido pelo qual concorre, mas não é o seu, ao PSDB? Provavelmente, não, assim como o PSB tem uma corrente refratária a essa ideia , o que a tornará, no mínimo, uma polêmica interna.

Em caso de vitória de Marina, a aproximação com o PT será tentada, dentro do tempo necessário para cicatrizar as feridas, o que guarda lógica com a condução dada por Amaral desde a morte súbita de Campos e justifica sua reunião com o ex-presidente Lula, ainda no auge da comoção com o acidente aéreo, cuja pauta política foi sempre negada pelo dirigente socialista.

A pressa de Amaral em se consolidar presidente do partido, que sofre uma desaceleração por pressão do núcleo pernambucano, apoiado pelo primeiro vice presidente da legenda, Beto Albuquerque, é pelo controle desse processo antes da definição eleitoral.

O adiamento da votação partidária para outubro, antes do segundo turno da eleição presidencial, mantém o prazo conveniente ao presidente em exercício do PSB, sendo provável que consiga o intento de substituir Campos, morto no exercício do cargo.

Esses cenários orientam o discurso de Aécio Neves que trata Marina, PSB, Dilma, Lula e PT, ramos de uma mesma família ideológica, de integrantes circunstancialmente separados por divergências na gestão política, porém mais propensos a alianças que os preservem do que à perpetuação das diferenças.

Tem faltado ao PSDB a nitidez necessária para exibir esses movimentos e, a partir daí, oferecer ao eleitor – principalmente o do voto útil – mais que um slogan de campanha, um raciocínio lógico que respalde suas afirmações quanto às afinidades que reduzem o grau de dissidência de Marina e PSB em relação ao PT.

O tempo conspira contra o candidato do PSDB, mas também contra Marina que precisará de acordos no segundo turno para reequilibrar a disputa com Dilma Rousseff, sempre considerando que a fotografia das pesquisas hoje refletirão o resultado do primeiro turno e as projeções para o segundo.

Essas posições, recomenda a política, são acertadas antes – são os chamados compromissos de campanha que permanecem longe das vistas dos eleitores para que não sejam lidos como declaração antecipada de derrota de um ou de outro candidato.

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