PSDB no canto do ringue

PSDB no canto do ringue

João Bosco Rabello

10 Fevereiro 2010 | 07h53

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso falou por conta e risco próprios ao responder à provocação do presidente Lula para comparar seus governos.

Mas não foi só por impulso de defender seu governo, ou por vaidade pessoal, como sugeriram as primeiras avaliações sobre a sua fala. E nem foi à revelia do partido.

FHC já sinalizara internamente que reagiria mesmo que isso implicasse suspender temporariamente a regra de evitar a polarização da campanha entre ele e o presidente Lula.

Sua manifestação – a segunda em um espaço de tempo curto -, mostra que o PSDB erra ao confundir a espera pelo lançamento de seu candidato com inércia absoluta. O silêncio deve ser do candidato, não do partido.

O próprio Serra disse exatamente isso em recente entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, na qual afirmou que fazer oposição é dever e tarefa do partido, não do governador.

O episódio flagra o PSDB desestruturado para a campanha, refém possivelmente da natureza centralizadora do seu candidato que, paradoxalmente à sua tese, contribui para que a campanha não se inicie sem ele.

No PSDB não existe a fase da pré-campanha: as negociações regionais estão atrasadíssimas, o planejamento estratégico idem, não se tem conhecimento de reuniões de lideranças para discutir conteúdo e elaboração de programa.

Nesse contexto, teme-se que a longa e continuada exposição dos ataques de Lula e Dilma, sem reação, acabe absorvida pelo eleitor como sinal de fragilidade do partido.

O PSDB parece inspirado no célebre pugilista Cassius Clay ao disputar, em 1974, o cinturão com George Foreman, anos mais novo, e em plena forma.

Cassius Clay e George Foreman na célebre luta, em 1974. Foto: Arquivo/AP

Cassius Clay e George Foreman na célebre luta, em 1974. Foto: Arquivo/AP

Clay adotou a estratégia de deixar ao adversário a iniciativa do combate, na expectativa de cansá-lo e, ao final, golpeá-lo inapelavelmente.

Deu certo: exibiu uma capacidade de resistência inédita, na mesma proporção da surra que levou durante todo o combate, num canto do ringue. Mas, ao final, venceu.

Mas o PSDB não é Cassius Clay. E Fernando Henrique sabe disso.