Prefeitos assumem com discursos promissores

Prefeitos assumem com discursos promissores

João Bosco Rabello

02 de janeiro de 2013 | 14h51

É cedo para estabelecer uma relação de causa e efeito entre o revés imposto pelo julgamento do mensalão  ao “projeto nacional” do PT e a mudança de postura percebida nos discursos dos prefeitos eleitos nas principais capitais do país, aparentemente dispostos a adotar gestões inspiradas nos manuais da iniciativa privada.

O espírito de gestão que “baixou” nos prefeitos está associado principalmente à realidade econômica que insiste em contrariar as diretrizes intervencionistas do partido, a impor soluções que vão muito além do assistencialismo e do consumo como alavanca para o crescimento.

Mas não se deve descartar um efeito – indireto que seja – do que representou a decisão histórica do Supremo Tribunal Federal (STF) como freio drástico a desvios de conduta com origem na mistura de politicagem e administração do bem público. Uma dose de didatismo certamente penetrou os poros do corpo político, ainda que em proporção insuficiente para que se espere mudanças drásticas.

De qualquer forma, as posses foram marcadas pelos anúncios de cortes de gastos, promessas de controle rígido do uso de recursos públicos, austeridade e gestão profissionalizada. Apertar o cinto foi a palavra de ordem dos eleitos – no que repetem seus antecessores, a maioria incapaz de cumprir o discurso.

O que parece novidade é a adesão da maioria ao conceito de gestões mais técnicas, com fixação de metas de desempenho, avaliação de resultados, implantação de comitês de gestão integrada, parcerias com o empresariado renegociação de dívidas – um modelo destinado a viabilizar mais investimentos.

Enfatizaram a adoção dessas práticas o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), de São Paulo, Fernando Haddad (PT), de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), do Rio Grande do Sul, José Fortunatti (PDT), de Salvador, ACM Neto (DEM) e o do Recife, Geraldo Julio (PSB), num arco partidário de ideologias distintas.

Eduardo Paes: Gestão Profissionalizada (Foto: Wilton Junior / Estadão Conteúdo)

 

No segundo mandato, Eduardo Paes parece já ter assimilado parte do conceito profissional, ao vocalizar uma autocrítica e uma promessa: “Governos acumulam gorduras e o meu deve ter acumulado também”; “Vou governar com inquietude, com olha crítico sobre minha administração”.

Levado a sério, isso se traduz por premiação ou demissão de funcionários estratégicos, em caso de êxito ou fracasso no cumprimento de suas metas, como deve ser por parte de qualquer governo efetivamente empenhado em prestar contas à população. Adotado na prática é um antídoto poderoso contra aparelhamentos partidários e afins.

No Rio Grande do Sul, Fortunatti promete o mesmo, acrescentando que vai começar pela gestão privada dos hospitais. ACM Neto anunciou corte de gastos, assim como Geraldo Julio, incluindo redução de quadros comissionados, indiscutível fator de inchaço das máquinas públicas, a começar pela federal.

Mais sintomático, por ser do PT, Fernando Haddad, de São Paulo, vai na mesma linha, com aval do presidente do partido, Rui Falcão, cuja adesão ao modelo precisa ainda ser testada na sua sinceridade. Afinal, ainda prega a inexistência do mensalão como delito penal.

A busca da eficiência não tem outro caminho, cuja interdição se dá pelo compadrio, aparelhamento partidário e todas as outras formas conhecidas de uma cultura política fisiológica, crônica no Brasil, à qual o PT aderiu ao se unir às velhas oligarquias.

A sinalização dos prefeitos para a necessidade de profissionalizar a gestão pública, com a abrangência que o termo implica, é o desafio da presidente Dilma Rousseff nos dois anos de mandato que lhe restam, dos quais apenas um, o que agora se inicia, será completo, desvinculado da campanha presidencial de 2014.

 

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