Posição sobre aborto já era cobrada ao PT, pela Igreja, há 16 anos, conta Frei Betto

João Bosco Rabello

26 de outubro de 2010 | 17h32

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Não por acaso, Frei Betto, lamenta o “descompasso” entre o programa do PT e o candidato à Presidência. Foto: Paulo Giandalia/AE – 28.05.2010

Há 16 anos, a polêmica sobre a descriminalização do aborto – que ajudou a empurrar a eleição presidencial para o segundo turno – já assombrava a campanha do então candidato à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva.

Em março de 1994, Lula percorria os municípios brasileiros com as Caravanas da Cidadania. No livro “Viagem ao Coração do Brasil”, que descreve essas viagens, Frei Betto relata o encontro de Lula com o arcebispo da Paraíba, Dom José Maria Pires (Dom Pelé) em João Pessoa, em que o religioso cobrou-lhe uma posição sobre o aborto.

Constrangido pela cobrança, porque o tema era uma das bandeiras do PT, Lula explicou (segundo Frei Betto) que era “pessoalmente contrário” ao aborto e que não fazia sentido o tema figurar num programa de candidato à chefia do Poder Executivo federal.

Lula deu a entender a Dom Pelé que a questão seria riscada da versão oficial do documento, prestes a ser aprovada na convenção nacional do PT, em Brasília, agendada para 1º de maio.

Em comentário pessoal ao relembrar a conversa entre Lula e Dom Pelé, Frei Betto afirma que o posicionamento do petista sobre o aborto era questionado por todas as autoridades religiosas em cada cidade por onde ele passava.

O testemunho, indiscutivelmente isento, mostra que o conflito do PT com a Igreja em relação ao tema vem de longe.

A cobrança em questão, à época em que se deu, foi de uma instituição parceira das esquerdas, prenúncio de uma ruptura que se deu na campanha atual.

O tema não entrou na campanha por uma “baixaria” de adversários do PT, mas pela via do próprio PT, que repetiu na campanha atual o que Lula prometera não permitir, há 16 anos: pôs no programa de governo a defesa da descriminalização.

Resta claro que o malabarismo de Lula para fazer uma distinção entre suas idéias e as do PT para o País sobrevive como uma dubiedade que o tempo conspira para desnudar.

Lula também garantiu que o controle social da mídia era um “factóide” produzido pelas alas alopradas do partido e que não deveria ser levado a sério.

Meses depois da promessa, seu ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, Franklin Martins, estava no exterior estudando modelos de controle da mídia, a pretexto de regulamentar o mercado pós- globalização tecnológica.

Na sequência, pipocam leis patrocinadas por parlamentares petistas, sob os auspícios de governadores atingidos por denúncias para as quais não têm defesa.

Foi o caso do Ceará, pioneiro na iniciativa, cujo governador, Cid Gomes, foi alvo de denúncias de uso do dinheiro público para turismo familiar a bordo de um jatinho em que se divertia na companhia, dentre outras, do irmão Ciro, crítico fácil da biografia de adversários – e até de aliados.

Em tais circunstâncias, melhor calar a imprensa, tese estimulada pelo presidente que, no papel de cabo eleitoral chamou de mentirosas as denúncias contra a ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, e, como Presidente, a demitiu com base nessas mesmas denúncias.

Não por acaso, Frei Betto, no livro mencionado, lamenta o “descompasso” entre o programa do PT e o candidato à Presidência.

Há 16 anos.

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