Petrobrás precisa falar sério

João Bosco Rabello

03 de abril de 2014 | 18h54

A nota da Petrobrás veiculada em post anterior não informa, em nenhum momento, o conteúdo do relatório que concluiu pela inexistência de suborno a funcionários da empresa, conforme denúncia  da empresa holandesa SBM, que ainda apura o caso em seu âmbito.

Nem esclarece como poderia encontrar provas de suborno , se este não é, por razões óbvias, documentado. Até aqui, a Petrobrás, além de protestar, nada fez a mais do que publicar um anúncio nos jornais informando que investigou e nada encontrou. Lacônica assim, após sindicância interna que durou um mês, enquanto a empresa corruptora, que admite o suborno, o investiga desde 2012.

É surpreendente como a empresa – que se regozija, com razão, de ser um símbolo nacional, considera ter cumprido seu dever com a informação que publicou. Ao público resta aceitar o que a empresa diz: investiguei e não achei nada. E estamos conversados. Para a seriedade empresarial que reivindica, precisaria muito mais:  pelo menos, a divulgação da investigação em todos os seus detalhes.

À denúncia precisa corresponder resposta séria. A Petrobrás exige que se acredite nela pela sua tradição, mas antiguidade não é garantia de idoneidade, por si só. À diretoria da empresa cabe zelar pela imagem que a fez orgulho nacional e que sucessivas denúncias e investigações (a Polícia Federal abriu agora inquérito para apurar a operação comercial em uma quarta refinaria) estão gradualmente desmanchando.

A empresa reage ao artigo com interpretações literais de figuras de retórica para tentar desqualificá-lo. Refere-se à afirmação de que para o resultado que produziu não precisaria de um mês, bastaria um dia. E se o resultado da investigação é o publicado, talvez um dia seja muito.

Também menciona a imagem de que o anúncio dá à investigação a credibilidade de uma nota de três reais, ou seja, nenhuma. Para um anúncio de cinco linhas, a imagem não exagera. É peça de ficção porque ninguém a conhece, não foi apresentada e, por isso, não existe para a maioria das pessoas.

O que o artigo procura mostrar é que a gravidade da denúncia – que permanece -, de que 139 milhões de dólares foram gastos no Brasil em suborno para concretizar um negócio que envolve a empresa, impõe resultado muito mais claro e sólido do que a nota de cinco linhas da empresa dizendo que investigou. Então, fica combinado assim: está investigado, era tudo mentira e estamos conversados.

Ao invocar novamente a seriedade da empresa, a nota afirma que “a principal ambiência corporativa está associada a empregados que entraram na empresa por concurso público”. Vende o  dever como virtude, mas não esclarece nada quanto à parte “não principal”, que fica devendo.

Essa menção é indicativa de que uma parte da empresa – a não principal -, não está sujeita à meritocracia dos concursos, informação , esta, sim, que a Petrobrás poderia dispensar de sua nota, dado que até a torcida do Flamengo sabe do aparelhamento político do governo, que não faz  da empresa exceção.

É disso que trata a investigação de Pasadena: a condução de aprovação de uma operação de mais de 1 bilhão de dólares – 28 vezes maior do que o pago pelo vendedor ao adquirir a mesma refinaria – e que ninguém menos que a presidente da República, conselheira à época, acusa de irregular por omitir dos conselheiros dados que a reprovariam.

Já está claro para todos que a operação foi política, para ser aprovada a qualquer custo (literalmente), conduzida por um ex-diretor da empresa, Paulo Roberto Costa, hoje preso pela Polícia Federal, que teve fotos suas publicadas na mesa de reuniões do presidente da República de então, Lula, ao lado da sua sucessora, Dilma.

É tudo muito suspeito – e mais fica depois que Nestor Cerveró, diretor demitido, avisa que virá ao Congresso Nacional contradizer a presidente Dilma, afirmando que ela, como os demais conselheiros, tiveram acesso ao contrato da compra de Pasadena, 15 dias antes de ser assinado.

A Petrobrás diz ao distinto público que pretende encerrar o assunto com um anúncio de cinco linhas dizendo que tudo foi apurado e nada encontrado.

A Petrobrás precisa falar sério.