Petrobrás, de ontem e de hoje, perdida em versões conflitantes

João Bosco Rabello

22 de abril de 2014 | 10h16

O longo feriado com o qual o governo esperava esfriar o debate em torno da CPI da Petrobrás, terminou sem que o tema saísse da pauta. E, mais uma vez, à revelia da oposição, que continua se beneficiando da guerra de versões dentro do próprio ambiente oficial.

A entrevista do ex-presidente da empresa, Sérgio Gabrielli, ao jornal O Estado de S.Paulo, acentuou o conflito interno que separa as gestões Lula e Dilma – e, por extensão, a percepção de que há mais por trás da compra da refinaria de Pasadena do que a avaliação posterior comercial de sua compra sugere.

Gabrielli vocaliza o que vai pelas mentes empresariais e políticas ao desidratar o álibi da presidente de que lhe foram omitidos dados essenciais da operação. Com razão, sustenta que a omissão das cláusulas de saída, e Marlim, da minuta apresentada ao conselho da empresa, não conferem legitimidade à defesa de Dilma.

Nesse aspecto, confirma o depoimento de Nestor Cerveró, então diretor da área internacional da Petrobrás de que as cláusulas são praxe em operações do gênero, passíveis de serem consideradas implícitas, e que a integralidade do contrato estava à disposição da diretoria da empresa e  poderia ter sido solicitada pelos conselheiros.

A omissão das duas cláusulas da minuta, portanto, não isenta de responsabilidade a presidente da República, nos termos colocados por Gabrielli.  Nesse caso, a outra indagação geral diz respeito à serventia desses conselhos, cujo critério  para sua formação passa ao largo da competência técnica para dar lugar à conveniência de aumentar vencimentos de servidores públicos.

É o que vale da entrevista do ex-presidente da Petrobrás. O resto do raciocínio não pode ser levado a sério, sobretudo quando repete o mantra de que a compra foi um bom negócio que depois se mostrou ruim por causa das mudanças de cenários do mercado internacional.

Não é crível que a área internacional da Petrobrás, sua diretoria executiva e seu conselho administrativo trabalhem sem previsão de cenário do mercado em que atuam. A avaliação de riscos trata exatamente disso, donde se conclui que se foi um mau negócio, o foi desde sempre.

Nada torna razoável o argumento de que foi um bom negócio que o tempo transformou em prejuízo. Um bom negócio inclui, no seu conceito, a durabilidade, o ambiente favorável a que se consolide – e não o contrário. A Petrobrás, de ontem e de hoje, continua subestimando a compreensão leiga, tentando dar complexidade a uma equação simples: comprou-se algo que não valia a pena.

Daí em diante, a pergunta passa a ser por que se deu seguimento à operação. O mais notável é a coragem de Gabrielli em argumentar com a “descoberta” do pré-sal como um dos fatores que tornaram o empreendimento de Pasadena obsoleto. Ora, o pré-sal existe há muitas décadas, embora o governo Lula o contabilize como a nova descoberta do Brasil.

O que é recente, mas não novidade, é a capacidade tecnológica para explorar a camada do pré-sal, o que não era desconhecido pela Petrobrás ao assinar o contrato de Pasadena. Além disso, Gabrielli tenta fixar no governo Fernando Henrique a origem da compra de Pasadena, ao vincular a operação à estratégia  da Petrobrás de pagar mais barato por  refinaria de óleo leve e adaptá-la para processar óleo pesado.

Um sofisma, pois o que está em discussão não é a estratégia descrita – de resto, um conceito que remonta aos primeiros escambos da humanidade: comprar mais barato e vender mais caro.

O problema é que Pasadena é exatamente o contrário: comprou-se uma refinaria por 28 vezes mais do que o vendedor a adquiriu, se quisermos a conta da oposição, ou três vezes, mais se a opção for os números do governo. E, com ela, nada se fez, como declarou um dos mentores da compra, Nestor Cerveró, ao dizer que deixou de ser um bom negócio porque não foi concluído.

Gabrielli preencheu o feriado da oposição, que volta descansada ao campo de batalha, renovada pelo conflito que o governo Dilma plantou com seu antecessor. Manteve acesa a chama da CPI, efeito que deve ter pesado antes de dar as suas declarações.

A relação custo/benefício dos envolvidos nesse enredo parece ser pessoal. Desde a declaração da presidente Dilma de que não tem nada a ver com o prejuízo da Petrobrás com a operação, por ter sido ludibriada na sua boa fé, todos os personagens atuam em legítima defesa.

Quem participou defende a operação como um bom negócio. Quem não a aprova, a considera prejudicial à empresa. A presidente da Petrobrás quantifica o prejuízo em mais de U$ 500 milhões. Gabrielli acha que os argumentos em contrário – ou seja, de Foster e Dilma, entre eles – criaram mitos em torno da operação.

Há, porém, um ponto comum: todos concordam que a operação não vingou, ou seja, não cumpriu seu objetivo, seja porque foi um erro estratégico, seja porque o mundo mudou.

É preciso mais que isso, diante da prisão de Paulo Roberto Costa, um diretor à época decisivo para aprovar a operação, e das digitais do doleiro Alberto Yousseff em operações da Petrobrás.