Perrela e o velho recurso de culpar a imprensa

João Bosco Rabello

05 Dezembro 2013 | 19h00

Ao senador Zezé Perrela (PDT-MG), deve ser concedida a presunção de inocência, devida a qualquer cidadão sob investigação, circunstância em que foi colocado após a apreensão de meia tonelada de cocaína em helicóptero de propriedade de sua empresa – e de seu filho, o também parlamentar Gustavo Perrela, deputado estadual pelo Partido Solidariedade mineiro.

Teria bastado o desabafo do senador com a indignação dos inocentes, como o fez da tribuna do Senado, para estabelecer o contraponto à suspeitas que recairiam sobre qualquer outro cidadão proprietário de uma aeronave com tal mercadoria. O resto é com a investigação que poderá confirmar a inocência dos empresários.

Mas o desabafo do senador foi além da afirmação de inocência, para culpar a política – e, claro -, a imprensa, pela exposição negativa de seu nome, de sua família e de sua empresa, em nova demonstração por parte de uma autoridade legislativa, de não reconhecer  o ônus da transparência imposto pela função pública ao seu ocupante – a quem cabe zelar pela imagem.

Não cabe à imprensa condenar por antecipação e nem omitir a informação, dada a dimensão criminal do episódio e sua vinculação com um senador da República – ainda que esta venha se mostrar – como esperam seus colegas e o país -, mera falta de sorte ou de cuidado seletivo na contratação e gestão de funcionários.

Nem a condenação e nem a absolvição competem à imprensa, por dever a mensageira da informação. Também não se deve ao exercício político o revés compulsório do episódio para o senador. Este lhe dá maior repercussão, o que é natural pela sua posição na estrutura de poder do país. É assim em qualquer ponto do planeta Terra.

“Mas a imprensa, quando não quer entender, quer ver sangue, quer massacrar. Meu filho não conhece sequer droga. Lutamos contra as drogas, participamos de campanha contra as drogas várias vezes”, disse Perrela.

Para em seguida defender o indefensável: o abastecimento do helicóptero pelo Senado, dentro da cota de combustível prevista no orçamento do gabinete para execício da atividade pública. Perrela tratou como legal aquilo que, mesmo quando operado dentro das regras regimentais, ainda é polêmico – o uso da verba de viagens, com a qual se compra passagem aérea, para abastecimento de meio de transporte particular.

Na verdade, os R$ 14 mil, que tratou com o desdém dos abonados, não foram utilizados sequer para abastecer meio de transporte pessoal, mas o helicóptero da empresa da família o que não pressupõe sua utilização para atividades políticas ou legislativas.

Tanto o noticiário a respeito do assunto quanto a reação dos colegas de Perrela – e o comportamento da própria Polícia Federal -, se inserem no contexto do benefício da dúvida aos proprietários do helicóptero, cuja versão aponta para evidências de uma ação paralela, marginal e criminosa dos pilotos.

Quando uma autoridade pública vive circunstância como a de Perrela dela se espera o que ele fez : a negação peremptória de cumplicidade com o episódio, mas como um dever do cargo, a satisfação pública sem expectativa da indulgência compulsória, com base na avaliação que tem de si próprio.

Não é um episódio qualquer: trata-se da apreensão de um carregamento de meia tonelada de cocaína para abastecimento de um mercado consumidor que sustenta o crime organizado no país. Por fatalidade, ou por falta de método preventivo, se deu em equipamento e território privados de um senador da República.

Com toda a compreensão pela dor exibida pelo senador, e com respeito à presunção de inocência, é de se perguntar que parcela de responsabilidade tem a imprensa com o seu infortúnio? Não deveria publicar tal notícia, mesmo com a literalidade com que o fez, dada a sua gravidade?