Pele de cordeiro

João Bosco Rabello

06 de abril de 2014 | 15h25

As alianças regionais para as eleições deste ano funcionam como uma espécie de radiografia da hérnia que esgarça o tecido partidário brasileiro há décadas. Alcança todos os partidos com as contradições que encerram, a denunciar que a ideologia no país é peça de discurso servida no cenário de pão e circo.

É no PT, porém, que esse enredo se mostra como peça de ficção melhor do que em qualquer outra legenda. Não por escolha seletiva, como se apressarão em reagir os militantes, mas porque é no partido que  o discurso ideológico foi rasgado com mais hipocrisia.

O PT não só abandonou o papel do qual se apoderou na oposição, de salvador da pátria, detergente contra a corrupção, como mantém esse discurso no poder, a despeito das corrupções que patrocina,  de que são provas as prisões de seus dirigentes históricos.

A cada dia novas denúncias consolidam a legenda como uma campeã de desmandos nacionais e de corrupção. Na esteira da Petrobrás descortina-se um vasto enredo em que o personagem Alberto Yousseff , doleiro conhecido do cenário político, é a argamassa a unir os pontos de investigação abertos pela Polícia Federal.

Operador da lavagem de dinheiro que liga Paulo Roberto Costa a negócios escusos da Petrobrás, o doleiro agora é o mais antigo amigo desconhecido do vice-presidente da Câmara, André Vargas, com quem convive há 20 anos.

E com quem abria, sabe-se agora,  “janelas de oportunidade” na administração pública em busca da independência financeira, conforme gravação da Polícia Federal divulgada esta semana pela revista Veja.

A fotografia do Pará, relatada no post imediatamente anterior, é apenas mais uma entre tantas que atestam a adesão do partido ao que há de mais conservador na política brasileira.  Na mesma proporção em que se sucedem os escândalos, as alianças do PT  com os que tratou como inimigos da Pátria, se  firmam no universo político.

É nesse contexto que se formam as alianças com personagens como os senadores Jáder Barbalho e José Sarney (MA), situados hoje no campo ideológico à esquerda, “progressistas”, a seguir o discurso do PT e de seu maior líder, Lula, que os opõe a perfis de “direita”, todos localizados no PSDB.

Como Jáder e Sarney estão onde sempre estiveram, o PT é quem caminhou na direção de ambos, perfis que apenas sintetizam de forma mais emblemática a “direitização” de um partido que insiste em se vender revolucionário. Ironia, a antítese do partido a Jáder,  é a ex-governadora Ana Julia – uma das piores em todo o país.

Essa subversão ideológica, desenvolvida sem a menor cerimônia, localiza o deputado André Vargas (PT-PR) como um progressista, militante da nobre causa de democratização das mídias, vanguarda social da comunicação, baluarte da luta contra a imprensa golpista.

Não é por acaso. A mídia é golpista pela ótica do partido que não quer a transparência. Representa um golpe na pretensão do partido de operar livremente desvios de recursos públicos para benefício de seus filiados e militantes, sob o discurso revolucionário.