Para Aécio, campanha começa agora

João Bosco Rabello

18 Dezembro 2013 | 15h30

Parece claro que as diretrizes anunciadas pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) não constituem um programa de governo, que talvez fosse a expectativa de muitos, mas apenas diretrizes mesmo. Uma seleção de pontos considerados prioritários para o candidato de oposição que deverá formar a espinha dorsal do roteiro de campanha e, mais à frente, um programa consistente de governo.

Os últimos movimentos de Aécio sugerem que tenha incorporado como necessidade estratégica a pressão do partido e de aliados, em geral, por uma maior velocidade na largada da campanha, já retardada pela tardia formalização do nome do candidato. Mais que um programa de televisão com recados em curto espaço de tempo,o vácuo da oposição na disputa reclamava uma sinalização do que pretende como governo.

É certo que, a essa altura, o partido já deveria ter , pelo menos, o esboço de um programa de governo, mas esse é outro capítulo da versão tucana da busca do tempo perdido. O que responde pela sensação transmitida pelo partido de uma anemia eleitoral oposta à necessidade de quem joga a eleição de sua história. O documento lido ontem procura atenuar o silêncio quanto a propostas e marcar a posse de Aécio como candidato.

A percepção geral de que falta ao PSDB a energia vital a um partido de oposição tem relação de causa e efeito direta com a indefinição proporcionada pela disputa interna. Ensina a experiência que a insegurança é mãe da hesitação – e soberana sobre o comportamento de quem não se sente legitimado pelos seus para assumir o que postula.

Foi esse sentimento que acompanhou o quase possível futuro candidato Aécio Neves até a véspera desse Natal, em que finalmente foi admitido pelo seu rival na legenda como o nome para enfrentar a duríssima candidatura governista. O que não deve ser lido ainda como a conquista da unidade interna. Mas, pelo menos, foi um passo nessa direção.

No primeiro momento, o conteúdo divulgado indica a intenção de resgatar a paternidade do PSDB em relação à estabilidade econômica alcançada com o Plano Real, situando-a como o porto seguro que permitiu ao PT dois mandatos bem sucedidos sob o comando do ex-presidente Lula. Tão exitosos que conseguiu fazer sucessora uma personagem sem qualquer recall político.

Praticamente anunciado como seu ministro da Fazenda, Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do governo de Fernando Henrique Cardoso, é mencionado por Aécio como referência de um retorno a uma gestão econômica que contraste com o aspecto aventureiro da atual, cujos revezes têm origem na flexibilização dos fundamentos daquela.

Bom, talvez indispensável aceno ao mercado ressabiado com o viés ideológico imposto pelo governo Dilma Rousseff à economia, de caráter intervencionista, mas ainda carente de tradução para uma linguagem eleitoral que chegue ao eleitor de forma clara.

É o trabalho do candidato sobre essas diretrizes que poderá determinar o êxito nesse desafio, extensivo aos demais temas que estarão em jogo na campanha, especialmente aqueles de natureza mais complexa, difícil até para iniciados.

O resgate do conceito de gestão econômica nascido com o Plano Real faz sentido, se tomado não pela disputa simplista entre PSDB e PT, mas como fator de reequilíbrio da economia, com o cumprimento do chamado tripé – cambio flutuante, metas de inflação e responsabilidade Fiscal.

O viés de resgate se justifica se sua flexibilização for indicada como causa principal da piora da economia, sendo as demais delas resultante, como a perda de confiança do investidor, entre outras. De qualquer forma, serve apenas de alerta não se constituindo em elemento de sedução do eleitor.

Aécio tinha que dar o passo para a rua , aqui no sentido figurado, como o movimento que deixa de restringir sua campanha às costuras internas. O passo foi dado e, embora com o tempo perdido já mencionado, evitará que entre 2014 com a timidez do candidato ungido mas não reconhecido.