Palocci: não há blindagem contra a dúvida

João Bosco Rabello

19 de maio de 2011 | 13h08

 

O governo demora a perceber que não há blindagem possível contra a dúvida e insiste na decisão de preservar o ministro Antonio Palocci sem abrir as informações sobre a sua consultoria.

A dúvida de hoje em relação a Palocci foi certeza ontem com sua antecessora no cargo, Erenice Guerra. Dela ficou provado o tráfico de influência, dele fica a suspeita de igual conduta enquanto prevalecer o argumento da confidencialidade dos contratos de sua empresa.

Argumento, por sinal, que se situa naquele terreno da meia-verdade: não se cobra o conteúdo dos contratos, mas os nomes dos clientes – o que bastaria para uma avaliação sobre a legitimidade da dupla função de ministro e consultor.

Como menos que meia-verdade foi a precária comparação com ministros de outros governos cujas circunstâncias em nada se assemelham às de Paloci.

Nenhum caso mencionado é igual: Pedro Malan, Pérsio Arida, Armínio Fraga e outros não voltaram à vida pública após cumprir as quarentenas de lei e se colocarem no mercado como consultores ou empregados.

Na tentativa de blindá-lo o governo ultrapassou os limites do bom senso e promoveu, através de suas lideranças no Congresso cena inédita de obstrução física a deputados,  impedidos de entrar em ambiente de reunião política, conforme noticiam os jornais hoje.

O deputado gaúcho Rubens Bueno, líder do PPS, foi impedido pela Polícia Legislativa de entrar na sala da Comissão de Finanças e Tributação para evitar quórum à votação de requerimento de convocação do ministro para esclarecer seus negócios.

O presidente da Casa, deputado Marco Maia (PT-SP), em viagem providenciada para esvaziar a votação do Código Florestal, deve explicações sobre esse episódio pelo que encerra de autoritarismo. Fica a pergunta: por orientação de quem a Polícia Legislativa cometeu ato tão grave?

Esse comportamento de recusa à transparência vai transformando o episódio em crise – a primeira com potencial para exploração pela oposição que, para bem do governo, não está tão animada como setores da  própria base aliada em agravar a situação do ministro.

Levar às últimas conseqüências a defesa de Palocci baseada no cerceamento da informação essencial, contribui para o deterioramento das relações com o Legislativo num momento especialmente importante para o governo: além do Código Florestal outros projetos, como o dos royalties do petróleo, estão na fila para decisão parlamentar.

Além de tudo, a estratégia mantém no cargo um ministro sob suspeita, cuja inteligência política, capacidade de articulação e, principalmente, poder de sedução, vai sucumbindo a condutas que já lhe custaram o cargo de ministro da Fazenda e danos consideráveis à imagem.