Pagot ameaça repetir Jefferson para obter blindagem

João Bosco Rabello

11 de julho de 2011 | 10h00

Depoimentos como o que o ex-diretor-geral do Dnit, Luis Antonio Pagot, prestará amanhã no Senado, não autorizam previsões porque sempre trazem o risco do imponderável.

Mas as benesses do Dnit, ainda que privilegiem o PR, se estendem de forma suprapartidária por Estados e municípios, garantindo eleições e esquemas de poder locais, ainda imunes à crise no ministério dos Transportes, o que pode reduzir o entusiasmo da comissão – e até mesmo da oposição.

Por isso, o governo mantém a expectativa de que  o PR conduza a crise com a visão política de quem  sabe ter muito mais a perder ainda se levar ao limite o enfrentamento.

Ainda assim, existem os riscos de sempre. 

Quando ministro da Fazenda, Antonio Palocci caiu antes da descoberta de sua freqüência à casa suspeita no Lago Sul, em Brasília, apelidada de “República de Ribeirão Preto”.

Palocci caiu pela primeira vez quando mentiu em depoimento à CPI dos Bingos, à qual comparecera como convidado.

A uma daquelas perguntas que surgem despretensiosas, se ainda se avistava com seus ex-assessores na prefeitura de Ribeirão Preto, respondeu categoricamente que desde sua posse como ministro jamais voltara a vê-los.

Poderia ter dito que limitava seus encontros com os ex-assessores a necessidades ditadas pela ação judicial que respondiam juntos sob acusação de gestão irregular na prefeitura.

Como mentiu, a mansão do Lago Sul, descoberta dias depois, se transformou na casa dos horrores, para o então ministro da Fazenda.

O líder do PMDB à época da CPI do Orçamento, que ficou conhecida como a CPI dos Anões, deputado Genebaldo Corrêa (PMDB-BA), saía-se bem depois de horas de depoimento até que o senador tucano Mário Covas (SP), sacou a única pergunta que avaliou restar-lhe àquela altura.

Indagou a Genebaldo se ele poderia garantir à comissão jamais ter dado um cheque seu ao então deputado João Alves, comandante do processo de corrupção no Orçamento, que costumava justificar sua fortuna com vitórias consecutivas na loteria.

Em dúvida se Covas possuía cópia de um eventual cheque seu a Alves, o pemedebista hesitou e disse que sua memória não permitia, depois de anos de convivência com Alves, dar tal garantia.

Caiu no blefe do astuto Covas e perdeu o mandato. Não havia cheque ou cópia de cheque, apenas uma cartada final de um veterano político que atuou em cima da dúvida do próprio depoente.

“Eu saberia se tivesse dado um cheque meu ao senhor”, disse Covas. E prosseguiu: “Mas se até Vossa Excelência  está em dúvida, o que dirá esta comissão!”.

Roberto Jefferson, cuja performance Pagot ameaça agora repetir, chutou o pau da barraca depois de concluir que perderia menos jogando seu mandato às favas para dar o abraço dos afogados no então ministro da Casa Civil, José Dirceu.

“Sublimou” o mandato quando percebeu que seria entregue às feras, sozinho, acusado do que fez e do que não fez.

O que difere Pagot de Jefferson hoje é exatamente a relação custo/benefício. A menos que o PR tente abandoná-lo à própria sorte, o que equivaleria a um tiro no pé, as ameaças de Pagot parecem ter mais o objetivo de blindá-lo na comissão do que efetivamente produzir um terremoto no governo Dilma.

Pagot ameaça contar o que sabe provavelmente para obter um tratamento político e não de réu durante seu depoimento.

A conferir.

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