Pacto: só princípios não neutralizam ruas

João Bosco Rabello

24 de junho de 2013 | 19h41

Os enunciados do pacto político proposto pela presidente Dilma Rousseff a governadores e prefeitos evidenciam erros próprios da pressa com que foram alinhavados, na esteira das manifestações de rua das últimas semanas. À exceção do plebiscito pela reforma política, de inspiração do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), a pauta, por si só, não sugere consistência para uma trégua.

A começar pelo pacto de responsabilidade fiscal, cujos efeitos para a economia só serão objetivos se o forem igualmente os pontos que determinarão sua abrangência e sinceridade. Dito como foi, tem efeito zero, até porque foi o governo federal que mais flertou com a flexibilização do princípio, assim como o fez com a inflação, além de negligenciar o alerta sobre a necessidade de reduzir a desconfiança do mercado.

O governo parece também alheio à ineficiência da gestão como causa a impulsionar o movimento. É o que sugere a proposta de mais médicos estrangeiros dissociada da melhoria das condições dos hospitais, reclamação maior e recorrente dos médicos brasileiros e dos pacientes. Ou a transformação da corrupção em crime hediondo.

Esta última é mais do mesmo: à falta de punição responde-se com mais legislação. O próprio partido do governo recusa-se a aceitar julgamento do Supremo Tribunal Federal que condenou alguns de seus dirigentes e faz do Congresso Nacional trincheira para desmoralizar a sentença. Adiantaria, nesse caso, aumentar as penas?

Ao caos do transporte responde-se com promessa de mais recursos e desonerações no setor (é bom lembrar que os manifestantes querem a desoneração do passageiro). Mais dinheiro sempre ajuda, mas não chegará ao necessário se não houver um pacto pelo fim das relações promíscuas entre partidos políticos e o setor dos transportes – este, tradicional financiador de campanhas, especialmente pela via do caixa-dois, o que lhe garante a condição de fornecedor blindado a cobranças das administrações que ajudou a eleger.

Por ora, é compreensível que a pauta seja de princípios, mas terá que haver, com alguma rapidez, detalhamento, fases de desenvolvimento e cronologia. Abertos ao acompanhamento.

É hora, afinal, de um padrão privado de gestão, que não se alcança com a base do partido do governo empenhada no populismo da meia entrada cultural, um socialismo com dinheiro privado, enquanto negligencia os serviços devidos ao contribuinte.

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