Os generais e a tropa

João Bosco Rabello

06 Junho 2014 | 12h00

O que importa na convenção do PMDB que deverá reafirmar o compromisso com a presidente Dilma Rousseff é menos esse resultado provável e mais o que a dissidência, estimada em 30%, reflete.

O caso do Rio de Janeiro mostra uma distância entre a posição formal que deverá ser extraída da convenção nacional e a ação da militância do partido. Aquela manterá a aliança, possivelmente com 70% dos votos; esta vai atuar pelo senador Aécio Neves no Estado.

Ainda é o Rio que dá a medida do efeito da hostilidade permanente que caracterizou a convivência de PT e PMDB no governo da presidente Dilma Rousseff. O desfecho foi o lançamento da candidatura do senador Lindbergh Farias, que significou a saída do PT da aliança com o governo Sérgio Cabral.

O caminho ficou aberto para os demais candidatos e foi aproveitado pelo  tucano, que terá a máquina do PMDB trabalhando a seu favor, enquanto em Brasília o QG da convenção fecha os cálculos do apoio a Dilma.

O chamado “Aezão” – aliança entre Aécio e o governador Luis Fernando Pezão – tem sua eficácia melhor traduzida por ninguém menos que o presidente regional do PT, Washington Quaquá.

“Os generais estão com a Dilma e a tropa com o Aécio. Não se vence guerra com os generais. Quem dá tiro é a tropa”.

Descontado o engajamento de Quaquá na campanha de Lindbergh, ele tem razão no diagnóstico, embora de sua causa faça parte, já que foi a candidatura Lindbergh que levou o ao rompimento da aliança, hoje reclamada pelo PT.

Esteve claro, desde sempre, que se Lindbergh saísse candidato, PT e PMDB não cruzariam mais seus caminhos. O partido parece ter apostado no agravamento do declínio de Sérgio Cabral para forçar a passagem.

Mas o PMDB tinha diagnóstico diverso: o desgaste de Cabral é pessoal, não transferível ao partido, como aparentemente confirma a caminhada de Pezão, que ganhou a visibilidade do cargo e a força do governo.

O discurso de Aécio é o que o PMDB gostaria de ouvir do PT desde o primeiro momento: o governo é da aliança vitoriosa e não de um partido que a compõe.

Soa como música aos ouvidos peemedebistas o canto de sereia de Aécio: “Me deem a vitória no Rio que eu dou a vocês a Presidência”. A frase coloca a Presidência como um domínio político de todos – se eleito, está subentendido na frase, ele a conduzirá em negociação permanente.

Faz da nostalgia do PMDB com a fase Lula, quando o partido se sentia atendido politicamente, um trunfo que, por mais que se esforce, a presidente Dilma não terá:  a sedução política, própria dos que são do ramo.

Mas o Rio, como dito, apenas reflete com mais visibilidade um quadro geral no PMDB que opõe o partido formal à militância, comportamentos antagônicos que convivem harmoniosamente, dentro da realidade de um cenário eleitoral sem verticalização, onde prevalece a bigamia política.

Pelo que se sabe, em cinco Estados, além do Rio, a rebelião contra a aliança nacional predomina: Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Acre, Piauí e, noutros quatro, as alianças que determinam o grau de fidelidade peemedebista, vão mal para o governo: Ceará,Paraná,Goiás e Mato Grosso do Sul.

Há, portanto, um desenho claro na campanha eleitoral: dois PMDBs estão em campo. Um, formal, que reafirmará com o entusiasmo das corujas, que apoia a aliança com Dilma. Outro, informal, com o engajamento da militância.