Oportunidades da crise

João Bosco Rabello

05 de dezembro de 2014 | 17h22

O governo logrou a aprovação da anistia da meta fiscal, a duras penas, mas a oposição também conseguiu alcançar seu objetivo de impor imenso desgaste político à presidente Dilma Rousseff, ajudada pelo PMDB que deu a maioria que lhe faltava enquanto executava sua estratégia de pressionar o Planalto.

O assunto ganhou visibilidade nacional , assim como a leitura de calote que a oposição conseguiu agregar ao projeto. Na volta mesmo do Congresso Nacional, na madrugada de hoje, era possível a muitos atores secundários da votação constatar que não há motorista de táxi que tivesse interpretação diferente que a disseminada pela oposição para o episódio.

Os telejornais cuidaram de explicar didaticamente o tema, de alguma complexidade econômica e pontuado por terminologias distantes do cotidiano da maioria das pessoas, traduzindo-o em uma conta de assimilação ginasiana.

Ao governo não restava alternativa senão cruzar o rubicão, que implicou o reconhecimento da impossibilidade de cumprir metas que ele próprio estipulara, passando um atestado público de má gestão – de resto, amplamente consolidada na opinião pública, diante das contradições entre o dioscurso de campanha e o dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff.

Não há dúvida para ninguém que o país está com a economia estagnada, as contas públicas destroçadas, investimentos paralisados, crescimento quase zero e que esse conjunto desanimador não pode ser atribuído a uma crise externa.

Ajuda essa última percepção o avassalador avanço das investigações que desnudam um esquema de corrupção de volume ímpar no país, em que um gerente de terceiro escalão da Petrobras se compromete a devolver 100 milhões de dólares.

O cidadão começa a fazer contas e a estabelecer a linha lógica de raciocínio entre corrupção de Estado e ineficiência de gestão, equação que explica a deterioração dos serviços públicos em contrapartida a uma carga tributária altíssima e corrosiva.

Mesmo assim, o PT ainda sonha em voltar a viver perigosamente, estimulando a ideia de que o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem prazo de vida no governo, no qual ficaria tempo suficiente para consertar os erros, assumindo o ônus das medidas recessivas.

Pode-se deduzir por pensamentos manifestados por alguns integrantes do partido que a guinada ortodoxa de Dilma tem prazo de validade, estimado em dois anos , ou pouco mais, tempo que se calcula para repor a economia nos trilhos.

Cumprida essa etapa, voltaria o discurso e a prática anteriores para viabilizar a candidatura do ex-presidente Lula em 2018, que se vitoriosa completaria o ciclo de 20 anos de poder petista. É uma nova ilusão, mas com riscos concretos de se levar o país à bancarrota.

A presidente Dilma ainda não deu os sinais necessários para tirar a nomeação de Joaquim Levy do plano da dúvida quanto à sua continuidade como modelo permanente para a economia. A dúvida do mercado em relação ao assunto é alimentada pelas versões como a do líder do PT, Humberto Costa (PE), que dão à nomeação de Levy caráter transitório (“é apenas uma etapa”).

A rigor, a presidente perde a oportunidade de enfrentar o fisiologismo de sua amplíssima base de sustentação no Congresso, ao manter o número de 39 ministérios como base mpara as negociações políticas em troca do apoio parlamentar.

O governo estimula a argumentação de que o número de Pastas, considerando as várias secretarias que têm status de ministério, mas estruturas simples, não é fator essencial no contexto do gasto público, o que orçamentariamente pode até fazer algum sentido.

Mas o nefasto é o que sinaliza e propicia estrutura tão grande. Sinaliza para um modelo de fartura, em época de incontornável austeridade, e propicia gastos fora do interesse público, para abrigar conveniências de uma constelação partidária que vai a 30 legendas, da qual se extraem apenas seis ou sete com legitimidade de representação, configurando uma maioria que se dedica tão somente à extorsão política.

Terá uma nova oportunidade a presidente da República de promover mudança também nesses critérios, quando desabar sobre o Congresso Nacional o telhado de concreto construído pela aliança mafiosa entre construtoras e os partidos da base de sustentação de seu governo.

 Se tomados por verdadeiros os frequentes sinais da presidente de que o sistema a torna refém – e a qualquer outro – da chantagem política de um universo de 30 partidos – que, teoricamente, impõe a submissão à vontade dos três maiores para fazer valer a força do governo -, a reforma política é a saída, ainda que nem precise se dar em toda a extensão ideal.

 Pois o quadro que advirá das investigações da Petrobrás oferece a oportunidade histórica de somar esses cenários fragmentados em um movimento que possa alterar o contexto nocivo atual. Desde que a presidente se disponha a liderar a reforma em bases plurais ao invés de fazer coro a mudanças sectárias que interessam apenas ao PT.

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