O vácuo que a oposição não ocupa

João Bosco Rabello

19 de novembro de 2013 | 14h30

O que chama a atenção na pesquisa Ibope realizada em parceria Estadão/Globo, é menos a dianteira mantida pela presidente Dilma Rousseff e mais a anemia da oposição que não consegue ocupar o espaço aberto pelo contingente de eleitores que diz querer mudanças. Pelo menos, não até agora, o que indica que para atender às mudanças pedidas pelos eleitores, a oposição precisa também mudar – e logo.

A permanência da presidente Dilma no patamar dos 40% não tranquiliza o governo e nem os coordenadores de sua campanha, à frente o ex-presidente Lula, que tem demonstrado inquietação com o índice da candidata, considerado de risco para quem tenta a reeleição com todos os instrumentos de governo à mão. Além disso, não desapareceram do horizonte as perspectivas de piora da economia.

Teme-se, no âmbito do governo, o rebaixamento da dívida brasileira pelas agências internacionais ainda no primeiro trimestre do próximo ano, o da campanha eleitoral, o que serviria como uma espécie de certidão negativa emitida em má hora estratégica pela proximidade da eleição. Mais (e pior): se os Estados Unidos retirarem os estímulos monetários, agrava-se a pressão inflacionária e desvaloriza o real.

Vai se consolidando a percepção que os desarranjos na economia foram além dos que as causas alheias ao empenho do governo justificariam e sua proporção hoje é, em grande parte, atribuída à tentativa da presidente de impor suas convicções, relativizando os fundamentos que trouxeram, com o Plano Real, a estabilidade.

Ainda que a presidente esteja empenhada em demonstrar, como o fez hoje pela manhã no Congresso da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, que os números são bem melhores que as críticas, o sentimento de instabilidade permanece no setor empresarial. O mesmo público que o governador Eduardo Campos continua cevando com seu diagnóstico e receitas para a crise.

No próprio PT o pessimismo é notório. A ideia de retorno de Lula não está dissipada e quem se der ao trabalho de ouvir as queixas contra Dilma no ambiente interno do partido, constatará que o discurso contra a gestão da presidente é bem mais crítico do que o da oposição. O partido quer de volta o céu de brigadeiro que prevaleceu nos mandatos de Lula – e por mais ilusão que seja -, acha que ele deixou de ser azul porque o piloto foi trocado.

Os índices da pesquisa, portanto, não são tranquilizadores para restaurar o ambiente de confiança na candidatura Dilma. Nem governo e nem partido se sentem seguros com o patamar atual, aparentemente o teto da candidata, porque a distância da eleição sugere a melhora dos concorrentes e, não necessariamente, o avanço de quem lidera.

Já foi assim em campanhas passadas, confirmando a tese de que o eleitor ainda não está concentrado na eleição, começará a se ocupar dela mais à frente e, por ora, externa o primeiro sentimento sem se aprofundar no exame de candidatos e propostas. Sempre é lembrado o exemplo mais recente, de 2010, quando José Serra tinha 40% e Dilma 3% na largada para a disputa.

Por essa razão é que o dado a ser valorizado na pesquisa publicada hoje é o que indica que o eleitor, por ora, não enxergou ainda o candidato ideal para conduzir as mudanças desejadas. Mas as quer e, como não há vácuo na política, pode ser renovado o crédito à presidente para que execute, ela, essas mudanças.

Se há um governo em crise, não é diferente com a oposição, que não encontrou o discurso certo,  possivelmente porque suas prioridades não sejam as da população.

 



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