O silêncio sintomático do BC

João Bosco Rabello

12 de setembro de 2014 | 20h00

O debate em torno da autonomia do Banco Central ainda permanece na pauta a merecer a abordagem de aspectos que, por mais mencionados, impõem ênfase. Nessa discussão, soa estranho, para empregar uma avaliação elegante, o silêncio da própria instituição a respeito.

É sintomática a coincidência entre o debate que se trava no âmbito da campanha e a queixa-crime que a área jurídica do banco tentou contra o economista Alexandre Schwartsman, por ter criticado a gestão do presidente Alexandre Tombini.

No momento em que a presidente Dilma Rousseff para contestar a tese da autonomia do BC o coloca como uma instituição não confiável, suscetível ao domínio dos bancos privados, produz uma crítica muito mais contundente que o economista processado, sem no entanto provocar qualquer indignação nos dirigentes da instituição.

O que a presidente Dilma diz é que o Banco Central é uma instituição dominada pelos bancos privados e por interesses espúrios. A lógica de seu raciocínio, portanto, é a de que o BC não é confiável sem a tutela do governo.

Tão cioso de sua imagem, a ponto de processar um ex-diretor que lhe fez críticas, não esboça reação de defesa de sua credibilidade diante de um processo de descrédito ofensivo a que está submetido no horário nobre das televisões e rádios, durante a propaganda eleitoral.

Nem se pode minimizar a manifestação da presidente debitando-a ao clima de campanha, pois que em 2010 Dilma disse o contrário, ao contestar o então adversário eleitoral, José Serra, notório crítico da tese da autonomia.

Como registrou a rádio CBN, à época, Serra manifestou-se, mais uma vez, contrário à autonomia do BC, com uma frase de efeito de grande repercussão. “O BC não é a Santa Sé”. Ao rebatê-lo, Dilma disse que a autonomia era imprescindível e exemplificou com a gestão do BC no governo Lula, a cargo de Henrique Meirelles, quando a instituição teve plena autonomia, ainda que informal.

“É importantíssima a autonomia operacional que o Banco Central teve no governo do presidente Lula”, disse a então candidata à presidência da República, no dia 10 de maio de 2010, defendendo o que não fez no cargo nem informalmente. É de se perguntar qual a opinião da candidata que prevalece – a de ontem ou a de hoje.

A melhor resposta é a que indica a prática da candidata depois de eleita. Na presidência, Dilma não só exerceu pressão permanente sobre o BC, como reduziu a taxa de juros artificialmente, voltando atrás depois que a medida se mostrou desastrosa.

Os juros voltaram aos dois dígitos, acima do patamar anterior, e o BC ficou exposto como um apêndice do Palácio do Planalto. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, demitido por Dilma na campanha atual, passou a desfrutar de uma liberdade que jamais teve com Meirelles no Banco Central.

Tudo isso faz parte da memória recente, que imprimiu a rejeição ostensiva da Presidente a Henrique Meirelles, apeado do cargo na sua gestão e novamente rejeitado para o lugar de Mantega como sugeriu, pediu e pressionou o ex-presidente Lula.

A pressão de Lula teve por limite a demissão de Mantega, o máximo a que se permitiu a candidata à reeleição, certamente por sentir-se ameaçada pelos números das pesquisas.

Seu anúncio de troca do ministro da Fazenda em caso de um segundo mandato não vem acompanhada de uma sinalização para mudança de rumos no modelo que revogou os fundamentos do Plano Real.

Não é casual. O comando da economia é da presidente que, ao contrário de seus antecessores, não delega nessa e em quase todas as áreas de governo. Assim, uma mudança de rumos só teria credibilidade se anunciado um nome que representasse pensamento independente, caso de Meirelles.

Não acontecerá, porém, e é por isso que nenhuma declaração de intenções da presidente produz qualquer reação do mercado. É como se nada tivesse sido dito. O que ainda permanece vivo na memória do mercado é a frase com que a então chefe da Casa Civil disse sobre a gestão econômica de Lula, com Antonio Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles, no BC. “É rudimentar”.

A frase permanece porque de todas as proferidas por Dilma é a que o mercado acredita atual. Nela se insere sua visão da autonomia do BC – a de uma instituição que só merece crredibilidade sob rédea curta. Fora disso, “é rudimentar”.

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