O “risco Lula”

João Bosco Rabello

26 de novembro de 2013 | 18h00

A hipótese de retorno do ex-presidente Lula como candidato do PT à presidência em 2014, é daquelas que sobrevivem quanto mais negadas. Nesse momento, ela não se restringe a parcela do PT insegura com a vulnerabilidade da presidente Dilma Rousseff , refletida no índice inferior a 45% , que persiste apesar da superexposição como chefe de governo.

Para aliados de outros partidos todas as composições políticas foram feitas com base na reeleição de Dilma, cenários que mudariam junto com a troca de candidatos. O PSD, por exemplo, teria dificuldades para transferir seu apoio na hipótese de a candidatura Lula prevalecer, porque a legenda reúne lideranças regionais que não comporiam com o ex-presidente.

Embora não se possa distinguir politicamente um do outro – ambos pertencem ao mesmo partido -, Dilma não é vista por eleitos e eleitores como a mesma coisa que seu mentor político. Sem historicidade no PT, seu perfil é mais palatável a uma faixa do eleitorado que não vota no partido, não gosta do ex-presidente, mas que deixou de acreditar no discurso oposicionista.

Fora do PT, onde ainda sobrevive um clima de queremismo, parte da aliança torce para que Dilma consiga se fortalecer mais entre o final de março e o começo de abril, desfazendo de vez o que já é tratado como o “risco Lula”.

A tese, dizem esses, serve também para a oposição, que deve preferir enfrentar a presidente, contra quem têm chances, do que Lula, dado ainda como imbatível.

Em que pese o equívoco dessa invencibilidade do ex-presidente (nem todos a dão por favas contadas), a candidatura de Dilma Rousseff é vista como garantia de um segundo turno, principalmente com dois candidatos de oposição já lançados à disputa. Com Lula, anteveem uma eleição difícil.

Ainda que não considere essa hipótese, o Planalto trabalha com a mesma percepção de que Dilma precisa melhorar os índices até março para consolidar seu favoritismo e desanuviar o ambiente de receio que a dissimulação política tenta manter em relação ao seu desempenho eleitoral.

Na vida real, avalia-se no círculo de campanha da presidente, que ela enfrentará uma campanha duríssima.

Até março, os indicadores oficiais e do mercado sinalizarão para maior ou menor risco de piora da economia, que ditarão o fôlego do governo para continuar adiando as medidas de ajuste sustadas pela conveniência eleitoral.

Até lá também a exposição da presidente em relação aos demais candidatos permanecerá ostensivamente desigual, o que será levado em conta na avaliação de risco dos aliados.

Não por outra razão, o PMDB acena com uma preliminar da convenção partidária em março, quando a presidente estará mais ou menos fortalecida, a depender do ambiente econômico.

Se melhor em relação ao presente, o partido mantém o apoio em troca do quinhão que já detém na estrutura de governo. Se pior, cobrará mais caro esse apoio – ou, na hipótese de uma deterioração não detectada no horizonte, pode até retirá-lo.

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