O risco da dubiedade como estratégia

João Bosco Rabello

31 Outubro 2013 | 17h12

O ministro-chefe da Secretaria-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, continua a voz destoante na abordagem de fatos em que governo e PT divergem. Desta vez, como de outras, Carvalho privilegia a posição partidária ao defender a abertura de diálogo com o grupo black blocs, em oposição à presidente Dilma Rousseff, que cobra ação enérgica dos poderes constituídos contra as ações do mesmo grupo.

Dilma chegou a classificar de barbárie os atos de violência promovidos pelo black blocs : “É necessário que tanto a Justiça como os órgãos responsáveis coíbam essa violência”, disse a presidente. “A simples criminalização imediata não vai resolver”, contrapôs Carvalho, ao defender o diálogo com os representantes do que considera um “fenômeno social”.

De novo, a máxima do ex-ministro Nelson Jobim, pela qual em política até a raiva é combinada, torna-se oportuna. É preciso grande dose de ingenuidade para se acreditar numa mera inconveniência do ministro com assento em gabinete próximo da presidente. A dubiedade é profissional e se orienta pela avaliação de que é necessário atender ao público interno e ao eleitor, de modo geral, que já se manifestou, em pesquisa, contrário às manifestações violentas.

A recente operação da inteligência da polícia de São Paulo identificando de forma cabal a presença do PCC na rotina da cidade, aponta para uma confluência nas ações predatórias, que já exibe características de uma guerrilha urbana. As acusações permanentes de tolerância histórica do PT com esse tipo de movimento marginal, fazem do flerte do ministro com o crime organizado um movimento de alto risco eleitoral.

É estratégia recorrente do PT estimular as manifestações conflitantes atribuindo-lhes virtude democrática. Lula exerceu essa estratégia de forma permanente em seu governo, apoiando as propostas das células partidárias dentro das conferências petistas (que chamava de “usinas de utopia”) e governando em parceria com o estabilishment.

É tempo de o PT se aperceber que o glamour esquerdista que produzia simpatia com os movimentos revolucionários deixou de existir – é uma espécie de woodstock político, que sobrevive como uma nostalgia de veteranos, algo muito distante da realidade de, pelo menos, duas gerações que enxergam no culto ao passado uma mania de vovôs exóticos.

Essa é uma realidade confirmada pela pauta dos protestos de junho, desprovida de conteúdo ideológico e caracterizada como uma passeata de contribuintes revoltados com a falta de reciprocidade do Estado na relação de deveres e direitos respectivos. Movimento reivindicativo logo neutralizado pela violência de grupos interessados em inviabilizá-lo.

O mais curioso, senão sintomático do papel de Carvalho no governo, é a falta da mesma manifestação em favor do diálogo com os manifestantes sem máscara que exibiram uma pauta clara de cobranças, sem dar sequer uma escassa canelada nas ruas. A violência encorajada pela ação coletiva e mascarada, que pode fazer de um medroso o mais corajoso dos homens, no entanto, mereceu o convite para uma conversa.

Não há como dissociar o convite do Secretário-geral do estímulo a mais violência , pela tolerância – e até compreensão – que sinaliza para os vândalos, ao tratá-los como representantes de um “fenômeno social”.

Se funcionou no passado recente, a estratégia do PT não deve lograr hoje o mesmo êxito. Patrulhamento ideológico não funciona mais para constranger a manifestação de repúdio por parte dos formadores de opinião e da população às ações predatórias do patrimônio público e privado e da agressão ao Estado simbolizada na surra covarde em um oficial de alta patente a serviço do contribuinte.

O governo terá de adotar uma posição clara em relação ao assunto, sob pena de agravar o oscilante índice de aprovação, cujo patamar é de risco para a reeleição de Dilma Rousseff. A cobrança pela imposição da autoridade do Estado é cristalina e a prudência recomenda que  a fala presidencial prevaleça sobre a opção juvenil de prestigiar uma parcela do público interno que, em tempos de conceituação ideológica consistente era logo repudiado com o rótulo de “esquerda festiva”