O Natal de Maduro e a negação da crise fiscal

João Bosco Rabello

05 de novembro de 2013 | 14h24

Diante da antecipação do nascimento de Cristo pelo presidente da Venezuela, Nicolas  Maduro, a negação da crise fiscal brasileira pelo Secretário do Tesouro, Arno Augustin, poderia até passar em branco, coisa de  aprendiz bolivariano.

Mas negar a crise fiscal é tão inútil quanto antecipar o Natal. Seu mérito é o de confirmar que, se na Venezuela o discurso é cristão, aqui o governo Dilma cumpre à risca a orientação de sua titular de fazer o diabo em campanha eleitoral.

Nega-se tudo, desde a inflação fora da meta até a desconstrução da Lei de Responsabilidade Fiscal, ou que haja desconfiança do investidor com a condução intervencionista da economia. Considerando que nenhum desses problemas ocorre, como sustenta o governo do PT, o Secretário do Tesouro está coerente com o método da negação.

A necessidade de adiar ao máximo o inevitável enfrentamento dos maus resultados econômicos – que impõe admiti-los -, leva o governo a recusar os números, adotando a máxima de que se os fatos não confirmam as teses, pior para os fatos. Não é diferente de negar mesmo a morte, como o fez a Venezuela com Hugo Chaves. Apenas tem menos impacto.

O Secretário do Tesouro faz sua afirmação, dois dias depois do registro do maior rombo nas contas públicas desde o Plano Real – e apesar dos dados do próprio Tesouro indicarem que a deterioração fiscal vai além das circunstâncias sazonais. Considerados os primeiros nove meses do ano, o saldo das contas caiu de R$ 75,3 bilhões em 2011 para R$ 54,8 bilhões em 2012 e R$ 27,9 bilhões neste ano.

No plano real, esses números são apenas a representação de algo maior que se traduz como o revés de uma linha de gestão econômica equivocada que desconstrói os fundamentos de um modelo que vinha dando certo e cuja alteração parece obedecer à determinação de prová-lo ideologicamente incorreto.

O grande problema é que a recuperação dos números não se dá por discurso ou por ações publicitárias, como ocorre com os índices de aprovação de governo. A primeira depende de correção de rumos que produza resultados legitimado pela ciência exata. A segunda, da fé do contribuinte nas promessas e números que lhes são apresentados.

No caso da aprovação popular, as aparências podem enganar até que os efeitos no bolso do contribuinte as desmintam. O método da negação conta que tal só ocorra em 2015, o que até há pouco era dado como certo pelo governo. Não mais: a intensa mobilização do ex-presidente Lula indica que o alarme do relógio político tocou o alerta.

Alguma percepção de que as coisas não vão tão bem quanto o governo as vende, ficou no público, pelo menos naquele representado nos protestos de junho, como indica a estagnação da presidente no índice de 38% de aprovação, reconquistado após uma das mais fantásticas operações midiáticas dos últimos tempos, mas bem distante ainda do patamar anterior, que o publicitário João Santana previu resgatar.

As tentativas de atrair os investidores esbarram nas contradições entre discurso e prática e na adesão constrangida a figurinos como o do leilão de Libra, negados como privatização em trecho do discurso presidencial totalmente dispensável.

O recuo no debate sobre a autonomia do Banco Central, abortado pela presidente Dilma, consolidou a desconfiança de que o governo opera a economia com visão ideológica anacrônica, atribuída exclusivamente à orientação presidencial.

O propósito era o de reverter o mau humor empresarial, o que fez a iniciativa do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) ter o aval de Lula para ressuscitar o projeto do senador Francisco Dornelles (PP-RJ).

Incluí-lo na pauta do Senado não significava a garantia de sua aprovação, até porque nem a oposição o apoia, como ficou claro na manifestação do senador Aécio Neves (MG), provável candidato do PSDB à presidência em 2014.

O contexto sugere aos atores políticos que a sintonia entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma, nesse e em outros campos, não é boa, e insufla o sentimento queremista que reaparece sempre que a percepção do risco eleitoral se apresenta.

 

 

 

 

 

 

 

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.