O fim da ilusão de uma eleição fácil

João Bosco Rabello

27 Março 2014 | 14h33

A crise da Petrobrás, já com CPI encaminhada, e a queda significativa de 43% para 36% na aprovação de governo, confirmam a avaliação, mais de uma vez feita neste espaço, de que a reeleição não será uma cruzada fácil para a presidente Dilma Rousseff.

Mais que difícil, é empreitada de risco que o governo negligenciou ao interpretar a aparente indiferença do eleitor com a sucessão de notícias negativas, como um sinal irreversível de vitória antecipada. A ponto de começar a acreditar que poderia mesmo vencer no primeiro turno.

A atitude de vencedor faz parte da alegoria eleitoral, mas apenas isso. Levá-la a sério a ponto de descuidar do exercício político e da gestão, como ficou patente na condução do movimento rebelde de sua base e no intervencionismo explícito no setor elétrico, podem ter condenado o governo a uma eleição das mais duras.

A falta de empolgação do eleitor, que parecia alheio às críticas e denúncias – algumas gravíssimas – da oposição, produziu um efeito hipnótico no governo que passou a se sentir blindado, à prova de bala, com a presidente dando as cartas,  indiferente a tudo e a todos, numa gestão personalista, como se ainda estivesse no topo das pesquisas.

Foi uma ilusão causada pelo debate eleitoral antecipado, como arrisca o cientista político Leonardo Barreto, colaborador do Broadcast Político. O debate começou mais cedo, de maneira informal, e parecia não sensibilizar a população, que não pôs a eleição ainda na pauta.

Mas as narrativas dos candidatos, centradas na desconstrução da imagem de gestora da presidente Dilma Rousseff, parecem começar a fazer efeito, embaladas pela sucessão de fatos negativos – dos apagões negados como crise, à corrupção na Petrobrás, símbolo nacional e um dos carros-chefes da campanha petista.

A mesma Petrobrás, decisiva nas vitórias eleitorais do PT nos últimos 10 anos, em que o partido acusava seu principal adversário, o PSDB, de querer entregar ao estrangeiro, ao traduzir privatização como um processo banal de venda de patrimônio público.

A CPI da Petrobrás parece irreversível, ou pelo menos o governo parece não ter mais esperanças de inviabilizá-la. Não há dúvida de que instalada produzirá um grande estrago eleitoral, por mais que se diga o contrário para atenuar seus efeitos.

Tanto assim que o governo se empenhou em evitá-la, passando a tratar a antes indigesta investigação formal do caso Pasadena, como um bálsamo. Da resistência às convocações de ministros, passou a estimulá-las para dar uma aparente eficiência à investigação, o que tornaria dispensável a CPI – ou a identificaria tão somente como uma jogada eleitoral da oposição.

A rigor, todo movimento no tabuleiro do xadrez político visa a um efeito eleitoral, em qualquer tempo. Em ano de eleição, de forma mais clara.

Não se trata, portanto, de nenhuma ilegitimidade a instalação de uma CPI, sobretudo quando se aplica ao caso – a apuração de corrupção grave no âmbito da mais importante empresa nacional, com foco em operação conhecida dentro e fora do país – e reconhecida também internacionalmente como uma maracutaia bilionária.

O caso é outro: o governo deu causa à oposição, ao produzir uma denúncia contra uma diretoria da Petrobrás, materializada por ninguém menos que a presidente da República, a principal interessada na reeleição, que se declarou enganada por funcionários da empresa, o que configura fraude. O resto é consequência, inclusive a CPI.