O custo Marina

João Bosco Rabello

07 Janeiro 2014 | 14h00

Alianças têm custo, principalmente se um dos parceiros dispõe de força eleitoral decisiva para viabilizar o projeto do outro, caso de Marina Silva com Eduardo Campos. Nada de extraordinário nisso. Há circunstâncias piores, como alianças feitas entre representantes de campos em que o antagonismo é predominante.

Governos sacrificam posições e, mesmo, princípios (quando os têm), em nome da estabilidade. É do que o Brasil dispõe de mais exemplos no curso de sua história política, bem além dos limites geralmente encontrados em países mais desenvolvidos.

(A chamada era Lula foi tão avassaladora nesse aspecto que seu partido, como se conheceu, acabou, e dois de seus dirigentes históricos estão presos. Aliou-se ao que de pior encontrou em nome de um projeto de poder e deu no que deu).

Marina Silva cobra preço proporcional ao seu peso na campanha do PSB, a começar pelos dois entre os três Estados mais importantes no mapa eleitoral brasileiro – Rio e São Paulo -, que somados a Minas formam o chamado Triângulo das Bermudas.

Vai impondo seu veto à aliança com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, em favor de uma candidatura própria do PSB, mas com DNA da Rede. Da mesma forma caminha, no Rio, para consolidar o apoio ao deputado Miro Teixeira, trabalhista histórico, hoje abrigado no Pros.

Não se sabe tudo do mapa desenhado por Marina e estudado por ela e Campos, onde as concessões, de lado a lado, são acertadas (ou não), mas é claro, pelas postulações da ex-senadora em São Paulo e Rio, que ela trabalha estrategicamente para obter resultados, mais tarde possíveis de capitalização política pela Rede, quando já um partido registrado.

Campos não sairá desse enredo sem arestas internas, mas  todas elas são reações tempestivas, fruto de circunstâncias regionais, que tendem a desaparecer com o êxito gradativo do projeto que traçou para si e para o PSB.

Sabe-se que mesmo a derrota em 2014 não poderá ser contabilizada como tal, dada a consolidação que representará para o partido socialista, que sairá do pleito mais sólido do que entrou, qualquer que seja o resultado.

O cuidado do PSB nas articulações é menos consigo próprio e mais com o parceiro PSDB, cujo candidato Aécio Neves é vital num segundo turno e vice-versa. O PSDB vive a eleição de sua história, que pode confirmá-lo como a principal legenda de oposição ou reduzi-lo a um movimento.

Para o PSB, a campanha ajuda a consolidá-lo como uma legenda nacional, qualificada pelo apoio da Rede, cuja imagem de agremiação comprometida com uma nova forma de fazer política, insere os socialistas num universo de rejeição à classe.

São os 20% de Marina que se repetem a cada pesquisa, aumentam conforme as simulações, mas não diminuem. Com eles, o governador de Pernambuco supera seu rival tucano e passa a trabalhar com perspectiva concreta de ser o nome da oposição no segundo turno. Não há, pois, submissão a Marina, mas um jogo que se joga com os dados da realidade.

Marina está pedindo, por esses 20%, por ora, e até onde se sabe, as posições de Rio e São Paulo, caras a candidatos e partidos. Não são estados onde o PSB tenha uma história de sucesso – nem mesmo um enredo em curso.

Na avaliação de Eduardo Campos, podem valer como preço político no contexto de um projeto de médio prazo que não se esgota numa eleição, pois não vive a angústia do PSDB, que não sabe como recomporá seus cacos na hipótese de uma quarta derrota consecutiva para seu principal adversário.