Novas denúncias reforçam dificuldade de manter Nascimento ministro

João Bosco Rabello

06 de julho de 2011 | 12h42

As primeiras 48 horas após as demissões no ministério dos Transportes, indicam a dificuldade para sustentação de Alfredo Nascimento no cargo, único sobrevivente da tsunami que atingiu a cúpula do ministério, demitida diretamente pela presidente da República.

A denúncia do jornal O Globo sobre o enriquecimento vertiginoso da empresa do filho do ministro, Gustavo Moraes Pereira, obtido com repasses indiretos da Pasta, já compromete seriamente sua condição de árbitro – ou interventor de si próprio – na administração da crise.

Segundo a reportagem, a empresa de Gustavo registrou, em dois anos, um aumento superior a 80.000% no seu patrimônio, que subiu de R$ 60 mil para R$ 55 milhões, no período. É uma denúncia grave e bem fundamentada.

O apoio da base aliada à permanência de Nascimento torna-se bem mais difícil, na medida em que não se trata mais de reivindicação política, mas de pressão para a continuidade de um processo onde a corrupção está constatada. É pedir à presidente que faça vista grossa a desvio de dinheiro público.

Ainda mais quando se sabe que esse tipo de processo costuma produzir denúncias diárias, indicando que a de hoje pode ser a primeira de uma série. Aconteceu assim com tantos outros que antecederam Nascimento em circunstâncias semelhantes, caso mais recente de Antonio Palocci.

O comportamento do diretor-geral do Dnit, Luis Pagot, resistindo à demissão com o artifício de entrar em férias, exibe a confiança desse tipo de agente público na chamada blindagem política, além de agravar a situação de Nascimento, seu superior hierárquico, ao sugerir que não tem controle sobre seus subordinados.

O temor no meio político é que o episódio se traduza por uma determinação da presidente de adotar o rigor como método para produzir as mudanças que deseja e ter seu ministério próprio. O fato é que ela se mostra disposta a impor seu estilo e autonomia para governar.

Dilma se distancia das pressões do PT, mantém o PMDB desinformado de decisões como a intervenção no ministério e se aproxima do PSDB permitindo a leitura de que estabelece alianças pessoais que possam minimizar as pressões de sua própria base no futuro.

A presidente certamente não se animará a abrir uma crise com o PR, numericamente consistente para criar dificuldades ao governo no Congresso, mas avançou o suficiente para não poder recuar.

Se a preservação de Nascimento, ainda que vista como uma forma de evitar uma crise aberta com o PR, mereceu crítica unânime dos analistas e da oposição, sustentá-lo em meio a uma onda de novas denúncias, é praticamente inviável.

Sua permanência manterá o ministério – e, por extensão, o governo -, na defensiva, abrindo amplo espaço para a exploração política pela oposição, inclusive com a possibilidade de uma CPI.

Nascimento, que ontem se mostrava determinado a dar todas as explicações possíveis no Congresso, terá de acrescentar a elas, agora, a questão do filho, de difícil defesa.

Resta saber como se dará a troca para que ela não seja a de seis por meia-dúzia, o que ocorrerá se a escolha do substituto de Nascimento, assim como dos seus principais auxiliares, ocorrer dentro dos mesmos critérios que orientaram suas escolhas: o de fazer do ministério base política para os negócios partidários e pessoais dos dirigentes do PR.

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