No plano da fantasia

João Bosco Rabello

14 de julho de 2014 | 15h22

Há notícias suficientes a indicar que a relação com o mundo financeiro centraliza as preocupações da coordenação de campanha do PT – e, mais que isso, as ações de perfis estratégicos empenhados na vitória eleitoral da presidente Dilma Rousseff.

Faz sentido e, por mais dissimulada no discurso,  a angústia com a situação econômica e sua influência no desgaste da candidata,  restrita ao bastidor da campanha, cede espaço à realidade quando se trata de buscar caminhos de resgate da relação com o mercado.

A maior dificuldade do governo, no entanto, continua sendo a de acreditar em uma teoria conspiratória, com origem na mídia e nos agentes empresariais conservadores, como premissa para um diagnóstico que ignora as causas.

“Uma ojeriza ao PT”, como define o experiente Walfrido Mares Guia, ex-ministro das Relações Institucionais do governo Lula, e atual coordenador da campanha da presidente Dilma Rousseff em Minas, ele próprio personagem e testemunha de que o PT viveu com o ex-presidente dias melhores na relação com os agentes econômicos.

Mudou, pois, a economia no governo Dilma, razão exclusiva do distanciamento dos investidores que, na época de seu antecessor, estavam muito próximos do Planalto.  Coube ao próprio Lula afirmar que o mundo empresarial nunca lucrou tanto quanto em sua gestão, desmentindo a tese golpista de seu ex-ministro.

Com Antonio Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central, o governo do PT, sob a regência de Lula, garantiu a reeleição mantendo as bases de um modelo implantado pelo antecessor, Fernando Henrique Cardoso, colhendo os frutos do plano de estabilização anterior ao seu primeiro mandato.

Não é demais lembrar que a dupla Meirelles / Palocci  sofreu ininterrupta oposição do partido do ex-presidente, cujas lideranças políticas e técnicas, entre as quais a presidente Dilma Rousseff, considerava o modelo em vigor, “rudimentar”.

É provável que a saída escapista absorvida por Mares Guia esteja vinculada à percepção de que a desconfiança do mundo capitalista com este governo esteja de tal forma consolidada que sua reversão, especialmente em curto prazo, não deva ser uma perspectiva concreta.

É difícil sustentar com tese tão superficial, como a “ojeriza ao PT”, o comportamento de agentes econômicos, cujo perfil se caracteriza pelo pragmatismo próprio do capitalismo.

Esses mesmos agentes estavam satisfeitos antes quando o mesmo PT estava no governo, porque a economia ia bem e o Planalto emitia sinais claros de apoio à sua área econômica, isolando sua oposição interna.

A presidente Dilma Rousseff interrompeu esse ciclo, menos para ceder ao PT, como Lula recusara, e mais por comandar a economia a partir de suas próprias convicções, como quem coloca acima da realidade a obsessão de provar que está certa.

Nesse contexto, o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central se tornam peças secundárias, submetidas ao pensamento presidencial, que centraliza as decisões e restringe o espaço do debate entre governo e mercado, subtraindo-lhes o oxigênio essencial. A presidente é solitariamente a ministra da economia de seu governo.

Por isso, mudanças na equipe econômica, sempre uma sinalização ao mercado, não surtiria qualquer efeito no cenário atual. Para mudar a economia, que vai de mal a pior, raciocina o investidor, só mudando o governo, o que explica a alta nas bolsas a cada pesquisa negativa para a presidente da República.

Ajuda a consolidar esse raciocínio do mundo dos negócios, a postura inflexível da presidente, o que levou a comparações de ocasião (válidas, diga-se) com o comportamento do técnico da seleção brasileira, espanada da Copa em seu país, pela insistência em uma gestão por todos criticada.

Dilma não emitiu qualquer sinal de mudança na gestão econômica que justificasse um crédito do mercado a um novo mandato. Ao contrário, para sustentar um debate acadêmico, mantém o discurso que torna excludentes desenvolvimento e inflação e acena, assim, com mais do mesmo em um eventual segundo mandato.

Durante boa parte do tempo, com o índice de aprovação ainda positivo, apostou no agravamento dessa queda de braço, mesmo quando os resultados se mostravam gradualmente piores. A maquiagem dos números, a contabilidade criativa e o discurso da inclusão social foram dados como paliativos seguros para que se chegasse a outubro sem que a percepção da inflação alcançasse o contribuinte.

Essa postura restringiu a campanha oficial, mais uma vez, a um exercício comparativo entre o período do PT no poder e o do PSDB, estratégia sem a eficácia de antes, até pelo tempo em que o partido está no governo: uma década, suficiente para que a comparação seja feita com a gestão anterior, também sua.

Melhor seria a presidente dizer claramente o que fará com a economia, se reeleita.  Não só para o mercado, mero reflexo das decisões do governo, mas também para o contribuinte, vítima direta de seus equívocos. Ou, como o técnico brasileiro, manter sigilo sobre o jogo, para confundir o adversário, e acabar surpreendido pela realidade.

 

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.