No índice máximo de risco

João Bosco Rabello

14 de abril de 2014 | 15h14

Não é boa a situação da presidente Dilma Rousseff com vistas à reeleição, ainda que no mapa das pesquisas , tecnicamente, se mantenha como a candidata com a chance mais clara de vitória.

Segundo o diretor do instituto Datafolha, Mauro Paulino, em entrevista à revista Veja,  historicamente o índice mínimo de êxito de candidatos à reeleição é de 34%. Com 36% das intenções de voto, agora alinhados com a aprovação de governo, a presidente está na meta técnica.

Com seus opositores bem abaixo desses índices, a presidente teria motivos para tranquilidade, não fosse o tsunami que se abate sobre seu governo, na economia e no cenário de corrupção que agora afeta a empresa-símbolo do orgulho nacional, a Petrobrás.

Enquanto a percepção dos maus resultados econômicos começa a chegar à população, antes do que previra o governo, com a inflação já na pauta cotidiana do cidadão, o caso Petrobrás cuida de agravar a situação política.

A operação de busca e apreensão da Polícia Federal na empresa, sem antecedente na sua história, surte o efeito de uma violação sagrada. Como ressalta um parlamentar aliado, o povo pode não entender os meandros de um debate político, mas sabe identificar problemas aonde a polícia vai.

A operação da PF legitima o pedido de CPI da oposição, mesmo que este não logre êxito. Nessa circunstância, aumenta o desgaste do governo com o ônus de tentar impedir uma investigação que a Polícia Federal diz, com suas ações, fazer sentido.

Certamente, esses acontecimentos contribuem para a queda da presidente nas pesquisas, que tem um viés de piora. A expectativa nos meios políticos é de que as próximas consultas dos institutos de opinião registrem índice menor que os 34% estabelecidos pelo diretor da Datafolha como o de risco máximo.

A oposição começa agora sua participação mais intensa na campanha. O lançamento da chapa Eduardo Campos/Marina Silva, hoje, em Brasília, marca o fim do ciclo de negociações internas do PSB e da Rede e o ingresso da dupla na campanha.

Mais lerdo nesse aspecto, o outro candidato, Aécio Neves, deve fazer o mesmo em pouco tempo. Mas, em compensação, teve sua visibilidade ampliada pela liderança na ação pela instalação da CPI, dividindo os holofotes com o governo em condições extremamente vantajosas.

Essa movimentação dos candidatos de oposição ocorre às vésperas da fase propagandística de rádio e televisão, que encontrará o governo na defensiva – de um lado, tentando evitar as investigações na Petrobrás; de outro, explicando que a inflação não está fora de controle.

Nas duas frentes lida com o improvável: convencer a todos que está tudo bem na economia, que o país não vive um ciclo de corrupção em escala inédita e que a imprensa é a culpada de todos os males.

Até mesmo o movimento pela candidatura do ex-presidente Lula, como saída para a perda de competitividade de sua sucessora, ganha contornos de uma operação mais difícil do que os argumentos simplórios que a sustentam.

Se já se dizia da inconveniência para Lula de apostar seu perfil vitorioso numa eleição que, vencendo, o submeteria a um mandato capaz de corroer sua biografia, mais verdade é que a investigação da Petrobrás compromete muito mais.

Foi em seu governo que os pilares da corrupção na empresa – o ex-diretor Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Yousseff -, construíram o que hoje se desenha como um propinoduto eleitoral destinado a 80% dos atores políticos vinculados à base aliada de Dilma.

O custo da estratégia de redução de danos empreendida pelo Planalto alcançou um grau de alto risco. O esforço para evitar a CPI impôs a ida da presidente da Petrobrás, Graça Foster, ao Senado, antes rejeitada, para um depoimento que pode agravar a situação do governo.

Graça irá ao Senado amanhã sem resposta razoável para a contradição que deu origem ao pedido da CPI, configurada nas versões da empresa que dirige e a da presidente da República para a mesma operação de compra da refinaria de Pasadena.

A presidente da Petrobrás terá de escolher se foi um bom negócio, versão que sustenta, ou se foi uma operação suspeita, só aprovada mediante a fraude implícita na omissão de dados pela diretoria aos conselheiros, entre os quais a presidente Dilma, autora dessa versão.

Só essa questão tem potencial para desorientar a depoente. É a chamada premissa, da qual decorre todo o resto do enredo que ela terá de desenvolver na comissão que a ouvirá. Mesmo que o país já tenha elementos suficientes para ter feito a sua escolha em favor da versão presidencial, bastando para tal os números da operação.

A melhor defesa do governo é ganhar tempo, o que pode livrá-lo da CPI, mas não dos efeitos da operação Petrobrás. Como se vê, o remédio mais eficaz não retira o paciente da UTI.