No conceito do PR, “nada consta” é atestado de insuficiência

João Bosco Rabello

07 de julho de 2011 | 18h33

No calor da batalha, o líder do PR na Câmara, deputado Lincoln Portela (MG), talvez não se tenha dado conta da frase que cunhou para justificar o veto do partido ao seu filiado, Paulo Sérgio Passos, preferido da presidente Dilma Rousseff para substituir Alfredo Nascimento como ministro dos Transportes.

“Ele é competente, sério, probo e íntegro, mas entre isso e ser ministro há uma distância a percorrer”.

O conjunto de virtudes, que vai da competência à integridade, não é suficiente para que Passos assuma o comando da Pasta, pela qual responde interinamente. O que faltaria a ele?

“Envergadura política” é a resposta dos dirigentes do PR. Um sofisma para “capacidade de negociação”, aqui entendida como disposição para manter o ministério a serviço dos interesses do partido.

Falta, pois, a Passos o que sobra em seu antecessor, e vice-versa, já que este último sai sob suspeita de conivência com o ambiente de promiscuidade que se instalou no ministério por todo o mandato do ex-presidente Lula.

É a inversão do conceito republicano de governo: é vetado o perfil virtuoso em favor daquele “aberto a negociações”, ainda que isso se traduza por tolerância com práticas contrárias ao interesse público.

Passos não tem o aval de seu partido por dispor de um “nada consta”. Por essa estranha ética, é preciso que conste algo.

Isso explica a sobrevivência e a força de um político como o deputado Waldemar da Costa Neto (PR-SP), de tantos similares no Congresso, com a prerrogativa de despachar do gabinete do ministro.

Por certo, pela sua “envergadura política”.

Poucas afirmações sintetizaram melhor as relações entre governo e base política no chamado sistema presidencialista de coalizão, que transformou, no Brasil, a atividade congressual em mera ficção.

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