Nada de novo no Haddad do velho PT

João Bosco Rabello

20 de setembro de 2012 | 14h16

O desempenho do candidato Fernando Haddad no recente debate promovido pelo Estadão/Google/ TV Cultura, foi uma síntese infeliz das declarações emitidas ao longo da campanha pelo ex-ministro da Educação de Lula, e provável fator de sua estagnação nas pesquisas.

Haddad não consegue responder de forma minimamente eficiente as principais questões que envolvem a sua candidatura – e quando o faz, sai pior a emenda que o soneto.

A começar pela tentativa de desfazer semelhanças entre a ida de Marta Suplicy para o ministério da Cultura e a renúncia de seu principal adversário, José Serra (PSDB) ao governo estadual para concorrer à presidência da República.

Instado a explicar como faz do caso tucano mote de sua campanha, levando ao eleitor a mensagem de que  pode elegê-lo e não tê-lo , como da primeira vez, e não aplica o mesmo princípio a Marta, simplesmente disse que ao Senado ela pode voltar. Sabe-se que não voltará, a menos que seja demitida e, para isso, é preciso surgir o imponderável, temor secreto de todo político.

Ainda nessa hipótese, trata-se da mesma coisa: eleito para um cargo, o político interrompe o mandato para assumir outro. Vale para Serra, Marta, Manoel ou Felisberto. É rigorosamente o mesmo caso. Mas o apoio de Marta ainda encurralou Haddad no debate: impossível desdenhar a relação de causa e efeito entre o apoio antes negado por ela com requintes de ironia dirigidas ao candidato, e o aval entusiasmado logo após a nomeação para ministra.

Outros apoios constrangidos, como o de Paulo Maluf, mereceram de Haddad resposta defensiva, como a de que, se eleito, ao ex-adversário nada dará. É dizer, mais ou menos: “Ele está comigo, mas eu não o terei por perto”. Mas, escárnio mesmo com o eleitor, é dizer que a aliança com Maluf só produzirá benesses ao PP, base aliada do governo, como se o ex-prefeito e o seu partido não estivessem na mesma cruzada.

E o mais estapafúrdio tiro no pé: rejeitar José Dirceu, dizendo que a associação dele ao ex-ministro e réu no mensalão, “é degradante”. Quanto mais conserta essa declaração, mais Haddad perde votos entre os eleitores petistas e não petistas. Afinal, a frase não teria pior efeito se proferida pelo adversário.  

 O problema de Haddad é que Marta, Maluf, Zé Dirceu, Lula e outros aliados e padrinhos, são a antítese diária do “novo”, carro-chefe de uma campanha que tenta passar a ideia de que o ex-ministro de Lula salvará São Paulo da “velha política”.

Afinal, a juventude do PT há muito se foi, porque o tempo é inexorável para todos, mesmo que essa realidade incontornável faça parte do rol de negações do partido, que recusa a terceira idade – em que chega com todos os vícios que atribui apenas aos outros.

Se negar diariamente o mensalão por quase uma década não o tornou a ficção pretendida e nem gerou as absolvições impossíveis, o que dirá negar o tempo e os vínculos políticos consolidados no seu curso.

Não se arrisca prognósticos em eleição, ainda mais uma tão complexa como a de São Paulo, mas o fôlego de Haddad diminui em momento decisivo porque o conceito de “novo” não pode ser etário, mas de transformação.

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