Movimento de Dilma força tomada de posições

João Bosco Rabello

26 de fevereiro de 2013 | 14h49

No xadrez político, o mais recente movimento do governo é taticamente correto. Esgotadas as tentativas de manter a aliança com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), na disputa presidencial de 2014, antecipou a campanha eleitoral, reforçou a parceria com o PMDB e, agora, providencia um “racha” no PSB insuflando a indefectível vocação dos irmãos Gomes (Ciro e Cid) para a intriga política.

A ideia é clara e repete a operação de 2010, quando Lula lançou Dilma Rousseff com um ano de antecedência para ocupar o vácuo deixado pelo PSDB, envolvido numa disputa interna entre José Serra e Aécio Neves, que agora parece não ter força para prosperar.

Com isso, o governo espera dar a largada na corrida sucessória apoiado por uma base ampla, da qual se excluiria apenas três legendas com densidade política entre as quase 30 que compõem o espectro partidário nacional. Cria a expectativa de poder essencial para consolidar alianças políticas e obriga os adversários e indecisos a tomarem posição.

Como em política não existe vácuo, a reação da concorrência foi imediata. O movimento do Planalto precipitou o lançamento, ainda que informal, de Aécio, ungido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o candidato do PSDB – e sem prévias. Empurra o governador Eduardo Campos também para uma posição mais formal de candidato.

Nesse estágio do processo, portanto, os concorrentes do governo foram levados a uma posição política reativa, que lhes tira a iniciativa das ações num momento em que se beneficiavam  da inconveniência da precipitação da campanha para o próprio governo, o que lhes daria amplo espaço para o exercício da crítica de viés eleitoral.

O lance tático do Planalto, porém, não afasta a principal condicionante ao êxito da presidente: a preservação de um bom cenário da economia em 2013, até aqui o pilar de seu alto índice de aprovação.  A ampla base de apoio em torno de Dilma, como qualquer outra na história política, consolida-se ou se dissolve a depender dos resultados do governo que a patrocina.

A consistência crítica de Ciro Gomes também não deve ser avaliada além do limite de seu alcance, hoje apenas o de produzir uma crise passageira nas hostes do PSB, sob  controle do governador pernambucano.

A Ciro falta a credibilidade da crítica coerente, que seu perfil verborrágico retira a cada lance que protagoniza, desde sua saída do governo Fernando Henrique até a campanha de Dilma em 2010, quando disse dela o mesmo que agora diz de Campos: que lhe faltava estrada. E mais: que Serra era candidato mais preparado, embora adversário.

Prestou-se aos interesses de Lula ao mudar seu título eleitoral para São Paulo, crédulo da possibilidade de candidatar-se ao governo estadual com apoio do ex-presidente. Entrou em período sabático mais recentemente, quando se ocupou como comentarista esportivo de uma emissora cearense.

Seu irmão, Cid Gomes, é igualmente polêmico na gestão do governo do Ceará. Indiferente às críticas pelo uso familiar de avião fretado pelo governo em viagem internacional, anuncia agora a compra de um jato de autonomia continental, inteiramente dispensável para o exercício do cargo.

Há dias, ainda sob a polêmica de um show para inauguração de um hospital em Sobral, seu berço eleitoral, ao preço de R$ 650 mil, reagiu afirmando que fará outros. Quase como um castigo divino, o hospital desabou parcialmente.

Se faltava a Dilma a estrada que hoje também falta a Campos, ela parece cada vez mais distante dos irmãos cearenses, cujas mostras de provincianismo autorizam a previsão de que se manterão no plano da política paroquial, de lógica própria e, frequentemente, ditada por interesses distantes da vida nacional.

O governo também estará mais vigiado nos seus movimentos, uma vez assumida a candidatura de Dilma à reeleição. Embora a fiscalização da Justiça Eleitoral esteja muito aquém do rigor desejável para candidatos no exercício do cargo, o risco da propaganda dos atos oficiais, daqui em diante, ultrapassar os limites ético e legal, é grande e permanente.

Se, de um lado, está dando as cartas do jogo, de outro o governo ajuda a consolidar a candidatura do PSDB e, possivelmente, a formalizar a do PSB. Este precisará exibir fôlego e determinação: aquele, a unidade partidária jamais exibida. E programa para o País, que acusam faltar ao governo atual.

A situação mais difícil é a de Eduardo Campos. Não por algum “racha” no partido, mas porque precisará demonstrar determinação suficiente para que sua aspiração não se baseie apenas no eventual fracasso de Dilma. Não parece sustentável uma candidatura  que se paute simplesmente pelo apoio ao governo que pretende suceder, sem oferecer alternativas que a tornem atraente pela fundamentação pública.

 

 

 

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