Ministra tenta devolver papel mediador ao Ministério do Meio Ambiente

Ministra tenta devolver papel mediador ao Ministério do Meio Ambiente

João Bosco Rabello

22 de junho de 2010 | 13h52

izabella

Izabella Teixeira surpreende pela clareza recusada pelos seus antecessores. Foto: Marcos de Paula/AE – 21.06.2010

Há pouco mais de 90 dias no cargo, a ministra Izabella Teixeira começa a devolver ao Ministério do Meio Ambiente seu papel mediador, retirando-lhe a visão unilateral na discussão dos problemas brasileiros no setor.

Nas gestões de Marina Silva e Carlos Minc, o ministério transitou entre o messianismo e o marketing ambiental, rotulando como reacionária qualquer visão divergente – e não somente a dos produtores rurais.

Em entrevista à repórter Marta Salomon, do Estadão, Izabella Teixeira surpreende pela clareza recusada pelos seus antecessores, aos quais esteve subordinada.

A mudança começa no estilo: nem recluso, como a atual candidata do PV à presidência, nem festivo como o seu sucessor imediato. Sóbria e objetiva, ela diz: “Eu não admito reduzir a discussão sobre o Código Florestal às minhocas e pererecas”.

Investe contra a polarização entre ambientalistas e ruralistas, convicta de que toda unanimidade é burra, antes de tudo.

Polarizar um assunto complexo como o que envolve a questão ambiental é uma forma de evitar o debate que pode qualificá-lo e impor uma visão autoritária do tema. E, com isso, impor também a gestão do problema.

Pelo menos por ora, ficamos livres do discurso infrutífero ou demagogo. Eis um trecho da entrevista ilustrativo dessa afirmação:

“A primeira versão do código é de 1965. O que havia antes deve ser entendido como situação consolidada. Claro que  vou ter perdas. Há déficit de reserva legal pela lei atual, e terei de aceitar esse déficit, porque não é viável nem economicamente, nem ambientalmente, remover do topo de morro áreas consolidadas. É um fato, vamos lidar com isso. Senão eu também teria de remover as 350 mil pessoas que moram na favela da Rocinha e plantar vegetação nativa. É tão simples quanto isso”.

No restante da entrevista (página A18) da edição de hoje, fica muito claro que dizer o que a realidade impõe não significa abrir mão de princípios fundamentais para a questão ambiental.

A ministra faz restrições técnicas e conceituais em relação ao projeto do deputado Aldo Rebelo, de reforma do Código Florestal, mas não o desqualifica para inviabilizar o debate.

Reconhece o projeto como início de um amplo debate para uma reforma inevitável da legislação. É dela a síntese:

“Acho que a lei atual tem problemas e defendo o aperfeiçoamento do Código, sim, mas com visão estratégica e não só trabalhando passivos ambientais associados à agricultura”.

Izabella esteve lá no ministério o tempo todo, o que nos leva a refletir sobre o critério de preencher cargos estratégicos com grifes políticas de visões e interesses consumados.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: