Meirelles e Josué, o certo e o duvidoso

João Bosco Rabello

22 de janeiro de 2014 | 18h50

A confirmação da escolha do empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas, para o ministério do Desenvolvimento, além dos prováveis méritos do escolhido, tem o objetivo estratégico de ajudar no esforço de reduzir a desconfiança do mercado com a linha econômica do governo.

Daí a antecedência com que seu nome frequenta o noticiário como sucessor de Fernando Pimentel, sem jamais ter sido desmentido.

Pode-se considerá-lo, assim, o primeiro nome confirmado do ministério que a presidente Dilma começa a reformar pela Casa Civil e Saúde, a serem ocupados por Aloizio Mercadante e Arthur Chioro, respectivamente, orientada pelo critério da sinergia com a campanha da reeleição. Inspiração de Lula, reproduz o modelo vitorioso com o pai de Josué, o ex-vice-presidente José Alencar.

É bem verdade que como fator de confiança para o empresariado, Henrique Meirelles foi muito mais importante na presidência do Banco Central, sobretudo enquanto o respaldo presidencial lhe blindou contra o boicote que o PT lhe moveu durante toda a gestão.

Mas Alencar teve seu papel, como voz do empresariado que, mesmo reconhecendo a importância de Meirelles, discordava da política monetária.

Lula elegeu-se com Alencar e trouxe Meirelles para o governo, dando materialidade ao compromisso da Carta aos Brasileiros, fundamentalmente uma promessa de continuidade da política econômica estabelecida a partir do Plano Real. Já Dilma, que não quis manter Meirelles, recorre a fórmula similar, mas apenas como aceno num quadro em que a desconfiança com a condução econômica do governo está consolidada.

É a diferença entre mudar e prometer mudar que separa um do outro. Dilma rompeu o compromisso da Carta aos Brasileiros, admitindo flexibilizar os fundamentos do plano que estabilizou a economia, flertou com o “pouquinho mais de inflação”, piorou os índices estratégicos e afastou os investidores. Agora precisa fazer o movimento contrário, o que parece difícil com promessas, especialmente se antecedidas de ações opostas, o que é o caso.

A retrospectiva é oportuna para entender uma provável razão para que a reprodução da estratégia, por sinais de fumaça, como se tenta com o presidente da Coteminas, não tenha encontrado ainda a receptividade desejada. Registram os dois lados – Josué e governo – a ausência de manifestações de setores representativos do mercado, como Fiesp, CNI, CNA, CNT e tantas outras, em favor da escolha do empresário mineiro.

Trocando em miúdos, não houve a repercussão esperada, ou seu efeito calmante sobre o mundo capitalista, possivelmente pelo caráter improvisado da operação, pela leitura de que pode se tratar de uma mera ação pontual da presidente e porque não é o ministério do Desenvolvimento o endereço que o mercado frequenta em busca de garantia de estabilidade.

Nada indica que, com Josué, a política econômica mudaria. O governo sugere tão somente que o quer como uma espécie de relações públicas para envernizar as relações com o empresariado, enferrujadas por uma desconfiança de fundo ideológico.

É, com intervalo de tempo, trocar Meirelles por Josué – este, numa sala VIP do aeroporto, aquele piloto do Boeing.

Enquanto isso, embarca quem precisa, com medo do piloto da hora.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.