Marta preserva seu patrimônio eleitoral

João Bosco Rabello

13 de janeiro de 2015 | 14h00

Desidratada do seu impacto inicial, a entrevista da senadora Marta Suplicy ao jornal O Estado de S.Paulo, estabelece nova projeção para a eleição municipal do ano que vem, acelerando possivelmente as providências do PT para resgatar algum viço eleitoral no maior colégio eleitoral do país.

O depoimento de Marta Suplicy à jornalista Eliane Cantanhede é extenso, mais crítico que autocrítico, se insere definitivamente como um dos mais históricos no cenário de crise do PT, mas sua motivação é o isolamento da senadora, que agrava a perda de patrimônio político do partido em São Paulo, onde o sentimento antipetista jorrou na recente eleição.

A escolha de Fernando Haddad por Lula como candidato à prefeitura, de certa forma, já indicava a percepção pelo ex-presidente do desgaste da legenda e da perda de competitividade no duelo histórico travado com o PSDB no Estado.

Marta foi preterida por essa razão. A avaliação negativa do partido incluiu o recall da ex-prefeita como fator de risco e não de potencial reocupação da prefeitura. Com a vitória de Haddad, a fórmula foi adotada para a disputa do governo estadual, mas o êxito não se repetiu. Marta foi novamente preterida, dessa vez em favor de uma fórmula esgotada.

O novo “poste”, Alexandre Padilha, apesar do empenho de Lula e do governo federal para alavancá-lo, não só perdeu a eleição, como ficou em terceiro lugar. O partido, de resto, foi humilhado no Estado, e a liderança do ex-presidente, relativizada, abrindo espaço para um passo mais ousado da presidente Dilma, na formação do ministério de seu segundo mandato.

É do sentimento antipetista registrado em São Paulo, que Marta pretende se alimentar para voltar ao cenário eleitoral paulista. Sua crítica ao PT encontra sintonia com a manifestação do eleitor, se admitida a relação de causa e efeito entre a reeleição estupenda de Geraldo Alckmin, a derrota acachapante de Eduardo Suplicy para José Serra na disputa para o Senado, a votação expressiva de Aécio Neves no Estado, a redução da bancada na Câmara Federal, a posição de “lanterninha” de Padilha – e a perda de capital político do partido.

A senadora partiu para a ruptura com a legenda. Não parece consistente a ideia de que sua entrevista almeje a recuperação de seu status no PT. A decisão de dar a entrevista é mais importante que seu conteúdo. Este, em si, não representa novidade. Sua importância está no perfil político de quem o fornece, por chancelar um diagnóstico conhecido, mas rejeitado pela legenda, ilustrado com relatos testemunhais que promovem versões a fatos políticos.

Marta tem um problema na opção partidária que deve se seguir à ruptura. A linha de perseguição interna que imprimiu à sua fala não parece suficientemente definida para efeito de se beneficiar da brecha que a legislação eleitoral abre para mudança de legenda que não seja nova, sem perda de mandato.

Mesmo no período em que descreve essa condição de preterida pelo partido, exerceu o cargo de ministra da Cultura pela legenda, além do exercício parlamentar. Se pretende levar essa argumentação à justiça eleitoral deve saber que se submeterá à interpretação dos juízes, à falta de fatos concretos que tornem indiscutível seu pleito.

De qualquer forma, pretende disputar – e esse é o sentido principal da ruptura e também a argumentação básica para a transferência de legenda. Se não consegue espaço para concorrer mesmo diante de inegável potencial eleitoral, pode caracterizar essa realidade em conflito incontornável com o partido.

O PT, pelas mãos do ex-presidente Lula, já começou a reação, dando alguma pluralidade à gestão de Fernando Haddad, que começa a absorver perfis de outros partidos, como o PMDB e o PSD, para fortalecer a prefeitura e ampliar a base de apoio à sua reeleição.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.