Marina/Campos, mais pragmático que programático

João Bosco Rabello

08 de outubro de 2013 | 13h00

Passada a euforia da aliança, o governador Eduardo Campos deve estar debruçado sobre o desafio da convivência com sua nova aliada, Marina Silva, que implica mais que um pacto entre dois candidatos: é a união de dois partidos, um em formação, que têm antagonismos a administrar. Marina desembarca no PSB com o seu conceito próprio de partido político, fora do padrão tradicional, figurino que não veste o novo parceiro.

Não é um desafio fácil. Não seria só a opção de ficar de fora da eleição que faria de Marina, no quesito imagem, a madre Teresa de Calcutá, como ela associou ao anunciar sua decisão de unir-se a Campos. Essa imagem está impregnada na ex-ministra de Lula por cultivo dela própria e vinculada à sua forma de tratar a questão ambiental de forma apocalíptica. A pureza, prerrogativa reservada aos santos, é atribuída por ela ao seu partido, que não se misturava (até sábado passado) às legendas tradicionais.

Marina não mudará sua visão ambientalista, o que é natural e legítimo. Mas a pretensão de chegar ao comando do país, como presidente ou vice, impõe a mediação que certamente o PSB desejará exercer, provavelmente sob o constrangimento da Rede, por ora, albergada na legenda socialista. Outros temas com vinculação religiosa e corretamente submetidos a políticas públicas, como aborto, casamento entre pessoas do mesmo gênero, testarão a visão de estado laico da ex-ministra.

O enfrentamento com o agronegócio, sem o qual sequer o “pibinho” haveria, também desafiará a convivência pactuada entre os dois candidatos, agora feitos um só. Em que termos se dará a convivência administrada, em campanha ou eventualmente vitoriosa, da chapa dos candidatos do norte-nordeste, quando se tratar de projetos de desenvolvimento que conflitem com a visão ambientalista da Rede?

O movimento indígena, capitaneado pela Funai, impôs sérios prejuízos financeiros e ao andamento das obras de hidrelétricas decisivas para a gestão do atual governo, sob o estímulo de Marina e oposição de Dilma Rousseff. Se eleito, Campos poderá ter eventualmente a oposição de Marina a projetos de seu governo nessa área, ele que sempre põe um foco no crescimento da indústria e no desenvolvimento, hoje pontos vigiados pela Rede. Como reagirá a isso é uma pergunta que se repetirá durante a campanha.

Para além dos temas que guardam viés ideológico, a chapa ainda é uma incógnita em relação aos próprios candidatos. Ficou clara a existência de um acordo antes do ingresso de Marina que deu ao anúncio um caráter de adesão da ex-ministra e consequente respeito à candidatura já posta do governador de Pernambuco. Mas a concorrência já começa a explorar o provável paradoxo de uma chapa encabeçada pelo candidato mais fraco nas pesquisas de intenção de voto.

De fato, mesmo que o pacto submeta Marina à candidatura do partido ao qual pediu abrigo, sua superioridade eleitoral será sempre um fator a pesar na relação de presidente e vice, na hipótese de vitória em 2014, na condução do país. E, mesmo antes, enquanto candidatos, no tratamento dado a temas que frequentarão os debates eleitorais. Difícil não desagradar , em alguns casos estratégicos, os eleitorados de cada um. Ora o eleitor de Marina se frustrará, ora o de Campos.

Por essas razões, entre as muitas não citadas, o acerto de Rede e PSB tem muito mais de pragmático do que de programático, ao contrário do que Marina sustentou em seu discurso de filiação. Do ponto de vista programático terão que ser feitos ajustes táticos para sobreviver às contradições já visíveis numa abordagem superficial. Isso deixa-se para depois. Por ora, o desafio é administrar o pragmatismo que orientou a parceria.

Para a questão da inferiorização eleitoral de Campos pode-se até admitir que ambos trabalhem – e vendam ao eleitor –  a visão de uma chapa cujo potencial é a soma e não a divisão dos índices verificados pela pesquisa. Para ficar nas mais recentes, a grosso modo, Marina com 16% e Campos com 6%, tem-se 22% , um patamar bastante razoável, com viés de alta. Mas será preciso acreditar que o eleitor da acionista majoritária concordará com a submissão de sua visão de país à do acionista minoritário.

Pode mesmo ocorrer isso em certa medida, se considerar-se que parte do porcentual de Marina é atribuído a eleitores insatisfeitos com a polarização PT/PSDB. Nesse caso, subtraído esse contingente de seu patrimônio, a relação estaria mais equilibrada. Mas isso é conta que não tem consistência para reverter a matemática objetiva da pesquisa.

Se poderá também dizer que importará mesmo a vitória eleitoral e, se ela ocorrer com Campos na cabeça de chapa, uma vez presidente a condução impositiva da visão de governo será natural. Pode ser, mas Marina poderá vir a ser o Itamar Franco de saias de Eduardo Campos.- aquele vice que faz oposição ao governo todo dia, comparação que se abstrai do mérito dos conflitos.

A comparação com o vice de Lula, o empresário José Alencar, não parece apropriada, pois sua crítica ao governo do qual fazia parte era um disco quebrado na faixa exclusiva dos juros, o que acabou sendo favorável ao presidente, que tinha no seu vice, não um opositor, mas uma voz estratégica a manter sob controle as críticas à gestão econômica. Era uma crítica combinada, longe de qualquer semelhança com o que se trata de forma dedutiva em relação a Marina e Campos.

Campos expurgou seus principais críticos internos – os irmãos Cid e Ciro Gomes -, mas pode ter colocado ao seu lado uma crítica permanente. A polemica sobre quem encabeçará a chapa pode também estabelecer uma dúvida no eleitor de ambos, a exemplo do que ocorre com Aécio e Serra no PSDB, um vírus a minar a meta de crescimento.

Nada disso desfaz a eficácia da aliança súbita como movimento tático de alcance eleitoral indiscutível. Há nela elementos fortes de potencial alto se explorados corretamente. O que pode gerar conflito pode também gerar saldo positivo, caso da aparente contradição de Marina ser vice tendo mais votos. Há desprendimento nisso, um gesto a ser exibido como a prova de que na política a causa submete os partidos.

Essa difícil administração vai testar a solidez da aliança feita numa madrugada. Por ora, foi um duro golpe no PT, mas uma ameaça real à condição do PSDB de principal protagonista da oposição.

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