Marina não lidera todos os eleitores que votaram nela

João Bosco Rabello

08 de outubro de 2010 | 14h53

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Marina continuará liderando a causa, mas com um PV que terá o mesmo tamanho com que entrou na eleição. Foto: Tiago Queiroz/AE – 06.10.2010

Parece cada vez mais claro que Marina Silva tem de seus os votos correspondentes aos 10% que carregou até um pouco mais da metade da campanha.

A outra metade é um mix de eleitores insatisfeitos com os dois candidatos mais bem posicionados na disputa, indecisos,  e,  possivelmente, gente que ia votar em Dilma e recuou para pensar melhor depois que o aborto entrou na pauta.

Já disse aqui que a abordagem plebiscitária do tema favorece o obscurantismo. Por isso, tudo o que o envolve como parte de uma política pública precisa entrar no debate sob pena de a campanha se render ao fundamentalismo religioso.

Falo da espiritualidade, mas também da saúde, educação, planejamento familiar, aspectos historicamente negligenciados por candidatos, governos e instituições religiosas.

Mas voltando à Marina, se for correta a interpretação dessa outra metade de sua votação, que a transformou em fator decisivo para a realização de um segundo turno, melhor será se Serra e Dilma não superestimarem sua liderança sobre os eleitores de última hora.

Os votos que podem ser considerados “verdes”, ou seja, que têm relação com a causa ambiental capitaneada por Marina, migrarão para quem ela ou o PV decidirem.

Os 10% finais têm de ser perseguidos pelos candidatos que disputam o segundo turno, entre indecisos e insatisfeitos com as campanhas de um e de outro.

Passada a eleição, Marina continuará liderando a causa, mas com um PV que terá o mesmo tamanho com que entrou na eleição e precisará de alianças para multiplicar o capital político obtido agora.

Marina teve os votos cativos do eleitor sintonizado com a questão ambiental, mas teve também os votos que não buscou, numa proporção igual. É inútil, pois, assediá-la com uma preocupação ecológica artificial.

O que tem de bom nesse contexto é que o tema ambiental está inserido definitivamente no calendário eleitoral brasileiro e, por extensão, na pauta política dos governos vindouros.

O que reforça a idéia de que a negociação com a candidata do PV deve passar pela absorção da “causa verde” naquilo que ela tem de consistente e equilibrado, sem ceder aos fundamentalismos que também aí inviabilizam conciliações indispensáveis como a explicitada na síntese “desenvolvimento sustentado”.

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