Manifesto da Rede trata PSB como seu cavalo de Tróia

João Bosco Rabello

23 Janeiro 2014 | 11h00

O ataque dos integrantes da Rede à aliança entre PSB e PSDB em Minas põe em xeque a solidez do pacto entre Aécio Neves e Eduardo Campos, por atingir um Estado-chave  no acordo de reciprocidade firmado pelos dois candidatos, envolvendo suas bases mais caras – aquelas por onde se elegem e que governam com amplo índice de aprovação popular.

Aécio e Campos selaram esse acordo em seus Estados, que incluiu o PSDB no governo de Pernambuco, movimento que deverá se repetir em Minas com o PSB ganhando assento na estrutura do governo de Antonio Anastasia.

O movimento da Rede, nesse caso, não se dilui no cenário de discussões rotineiras dos partidos, mas afronta diretamente um pacto pessoal entre os dois candidatos. Se respaldado por Marina Silva, como dita a lógica, é uma censura e um veto aos dois candidatos.

Quando Marina investiu contra o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), um dos perfis mais expressivos da corrente parlamentar vinculada ao agronegócio, provocou a indagação geral de qual seria o limite para as intervenções da Rede no processo de costura política que já encontrara meio caminho andado no PSB.

O ato da ex-senadora produziu efeito definitivo. Campos entrou em cena, atenuou as reações dos ruralistas, mas não conseguiu restabelecer o canal com o setor, que já exigia uma paciente construção antes do episódio. Passado algum tempo, veio o veto à aliança com o PSDB  em São Paulo, indicando que a Rede não se sente limitada por qualquer sentido de composição com os socialistas.

O caso de Minas vem em tom panfletário, mais identificado com o PT, ao pregar a candidatura própria para estancar “o rodízio de velhos grupos no poder e há muito tempo incapaz de ousadia e inovação”.

Não será difícil encontrar esse tipo de conteúdo em textos do Psol, que também pretende fazer uma política sem alianças. A questão é que Marina e o PSB têm uma aliança, o que pressupõe negociações de posições.

O que parece – e as aparências têm importância na política -, é que a Rede toma iniciativas e lhes dá publicidade à revelia de Campos, mas não de Marina, considerando o silêncio desta.

O que mais chama a atenção no texto panfletário distribuído ontem pela Rede é a extensão do princípio da candidatura própria a todo o país, apagando a impressão inicial de que Marina negociaria posições com Campos em estados que lhe fossem mais estratégicos no mapa eleitoral brasileiro.

Mas, pelo texto da Rede, não: sem registro e acampada no PSB, comunicou à nação que “a construção de candidaturas independentes nas eleições de 2014 é a perspectiva que a Rede propõe a Minas e ao país”.

É uma declaração pública de que pretende fazer do PSB seu cavalo de Tróia para antecipar candidaturas de seu interesse antes de existir como um partido formalmente criado.

O propósito divide uma aliança que se pretende fator de unidade para a meta comum de encerrar o ciclo do PT no poder, conforme definição da própria Marina. Para tanto, precisam do pacto de não agressão selado entre Campos e Aécio.

Do contrário, o comportamento da Rede levará ao isolamento de Campos, dando razão a Aécio quando considerou que rompimentos como o pregado por Marina em São Paulo, afetam mais o PSB que o PSDB.