Mais maquiagem, mais desconfiança

João Bosco Rabello

14 Janeiro 2014 | 20h00

Se nada mais aparecer até lá, a presidente Dilma Rousseff desembarcará em Davos, para o Forum Mundial que reúne os maiores investidores do planeta,  com mais uma pérola da chamada contabilidade criativa, com a qual vem driblando os números negativos de sua gestão,  na tentativa de exibi-la saudável.

Agora foi a vez da Caixa Econômica Federal meter- se numa aventura de confisco de poupança, encerrando 552.527 contas sem movimentação há algum tempo, ou pendentes de regularização cadastral. O saldo dessas contas, de R$ 719 milhões, inflou o lucro líquido da instituição em R$ 420 milhões, em 2012.

Ao que se sabe, a auditoria da Controladoria Geral da União (CGU) que apurou a operação, a considerou irregular, diagnóstico também do Banco Central , depois de informado dos conteúdos da auditoria. Esta, segundo a revista Isto É, sofreu restrição ao seu trabalho, atitude própria de quem tem o que esconder.

E , tinha. As normas do Banco Central usadas para respaldar a operação não a autorizam, a não ser em casos de fraudes constatadas e comunicadas à Polícia Federal. Mas a CEF nem ao BC e nem à PF comunicou a decisão do que se perpetuará como um confisco.

O que o episódio autoriza é a desconfiança de até onde já foi a chamada contabilidade criativa do governo – e até onde este considera possível ir. Que limites já foram ultrapassados ou se a maquiagem da CEF se restringe à recente descoberta com relação à poupança, são indagações que começam a ser feitas e que continuam sem resposta.

A oposição revela cautela nas primeiras abordagens sobre o assunto, por não saber ainda o nível de conhecimento da operação no organograma do poder do Estado. Mas sabe que já pode considerá-la uma ação do governo contra o Estado, restando detectar os graus de participação.

Por isso, o requerimento de convocação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Em qualquer circunstância, a presidente Dilma terá de agir de forma exemplar, desde que o possa, pois o caso é uma extensão do precedente aberto pelo primeiro escalão com as maquiagens feitas para fechar metas anunciadas e não cumpridas.

Na queda de braço que trava com o mercado, a presidente e sua equipe econômica produziram a contabilidade criativa para não dar o braço a torcer. De uma discussão acadêmica passou-se à materialização de procedimentos heterodoxos que detonaram a credibilidade do país junto aos investidores – resultado debitado pelos que a ele deram causa, a pessimistas de plantão.

A operação-confisco da Caixa desmoraliza a tese da “guerra psicológica” levantada pela presidente da República para justificar o afastamento dos investidores e explica, por si só, porque a desconfiança se instalou no mercado em relação ao seu governo.