Mais do mesmo

João Bosco Rabello

16 de março de 2015 | 12h30

O êxito da manifestação popular do dia 15 era previsível, mas o governo, mesmo assim,  parece tê-la esperado em estado catatônico. É o que se depreende da entrevista coletiva, a dois, dos ministros da Justiça, Eduardo  Cardozo, e da Secretaria Geral, Miguel Rosseto, ao final do dia, para a palavra oficial sobre o protesto.

Como resposta objetiva, mais do mesmo. O governo ofereceu o que já prometera em junho de 2013 e que jamais saiu do papel. E nem poderia: já ali as promessas eram meras peças de retórica: constituinte exclusiva,  reforma política, combate à corrupção. Ontem foi excluída apenas a constituinte.

Mesmo assim, essa reação foi antecedida de um discurso defensivo cada vez mais distante da realidade. Nessa toada, é provável que o contribuinte troque o panelaço durante essas falas enfadonhas do governo pelo controle remoto para desligar a televisão. Ou mudar de canal.

Os ministros não conseguem mais a equidistância necessária do cargo e da camisa partidária. Não foram ali falar do governo, mas do governo do PT, tal o empenho em desqualificar a manifestação. Miguel Rosseto  chegou a dizer que a maioria dos manifestantes é formada por eleitores da oposição,  como se fosse possível contabilizá-los dessa forma.

Nem se deu conta de que a frase admite que eleitores da presidente Dilma Rousseff, ainda que em minoria, já participam dos protestos contra seu governo. Se assim é, com apenas dois meses do novo mandato, trata-se de voto arrependido, o que faz da defesa do ministro uma peça contra o governo.

Rosseto não disfarçava a irritação. E foi além, ao registrar o caráter pacífico da manifestação.   Ao elogiar esse aspecto, disse que não seria tolerável que o tom das passeatas fosse o impeachment, possivelmente sem se dar conta de que a manifestação é livre. Não se dirigia aos partidos de oposição, mas à população que foi às ruas.

Na véspera, o ministro da Justiça, em tom de advertência, dizia o mesmo: passeata, sim, mas com impeachment, não. Seria, na versão de ambos, golpismo. De quem, dentre as centenas de milhares de pessoas que foram às ruas em todo o país, sem companhia  de líderes políticos?

Cardozo saudou a democracia, refletida na manifestação ordeira, valorizando-a como uma garantia do governo do PT, a exemplo do que faz a presidente Dilma Rousseff – e ele próprio –  ao tentar atribuir a uma iniciativa do governo as ações da Polícia Federal e do Ministério Público no combate à corrupção.

Esta, a propósito, mais uma vez anunciada como um compromisso do governo. Agora, com o anúncio de mais uma legislação anticorrupção, como se o Ministério Público e o Judiciário já não estivessem a léguas de distância com a operação Lava Jato, que o governo não trata com a transparência devida.

E como se o combate à corrupção dependesse de mais legislação.

A opção pela escalação dos ministros reforça a imagem de tutela que começa a ficar impressa na presidente Dilma Rousseff. Não é ela quem dialoga com o Congresso, nem a que aparece para anunciar – e mesmo explicar – as medidas do ajuste fiscal, assim como também não se expõe em defesa de seu governo depois de manifestação tão significativa como a de domingo.

Essa constatação empresta credibilidade às versões não desmentidas de atritos cada vez mais frequentes – e intensos – entre a presidente e seu antecessor, Lula, como a que circulou após o encontro mais recente de ambos no Palácio da Alvorada. Por essa versão, o ex-presidente chegou ao limite com a resistência da sucessora em adotar as sugestões que recebe.

Pode ser a resistência à tutela, que as circunstâncias tornam cada vez mais frágil. Possivelmente o roteiro traçado por Lula passa pelo reconhecimento do governo de que seus erros levaram à crise e que, agora, se empenha em corrigir os rumos. Serve a ele, Lula, mas desserve à biografia da presidente – eis aí o dilema.

O reconhecimento de Dilma de que errou na economia serviria a Lula como o atestado de que precisa para se desvincular da crise econômica. No seu governo, os números eram positivos. A sucessora, sua afilhada, produziu a crise por teimosia, uma versão perfeita para seu retorno em 2018.

O problema de Dilma é que os fatos dão razão a Lula: sem reconhecer  os erros que levaram à crise, a presidente terá a missão impossível de defender medidas corretivas, como gosta de chamar o ajuste fiscal, sem causas que as justifiquem.

É no que parece insistir o Planalto:  a ideia de uma cirurgia em paciente saudável,  que fez tudo certo na vida mas, apesar da boa forma, precisa da UTI para tratar uma gripe passageira.

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