Lula recomenda o zelo que não tem pela memória política

João Bosco Rabello

30 de outubro de 2013 | 16h06

A máxima do ex-ministro Nelson Jobim, de que em política até a raiva é combinada, não poderia encontrar melhor ambiente para ser proferida do que o escolhido pelo autor – a cerimônia de celebração dos 25 anos da Constituição de 88, no plenário do Senado.

Não pelo ambiente físico, mas político. Lá estavam os presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros (PMDB-AL) e Henrique Alves (PMDB-RN), respectivamente, dois ex-presidentes da República, José Sarney (PMDB-AP) e Luis Inácio Lula da Silva, entre algo em torno de uma centena de convidados e homenageados.

Foi nesse contexto que Lula, respaldando antecipadamente a fala de Jobim, distribuiu uma série de frases feitas, cuidadosamente selecionadas para serem ditas na ocasião em tom que sugerisse espontaneidade. É o melhor do ex-presidente, que as distribui de acordo com o interesse da hora, indiferente aos riscos de contradição com falas anteriores.

Esse desprezo pela memória de sua própria trajetória desautoriza a recomendação à juventude de apreço com a  história política brasileira a fim de evitar injustiças como o julgamento errado da classe política – e da própria política, sem a qual não se exerce a democracia.

Lula é a mesma voz que quantificou a corrupção na Câmara, antes de chegar à presidência da República.: para ele a Casa abriga , em média, 300 picaretas.
Após a eleição, uma vez presidente, não trabalhou para ajudar a sanear o ambiente que ele mesmo elegera insalubre.

Pelo contrário, para fugir ao risco de se tornar refém do PMDB, hoje seu principal aliado, cooptou o contingente que acabou protagonizando o escândalo do mensalão.

Lula pôs Sarney no mesmo plano de Ulysses em relação à Constituinte de 88, transferiu à imprensa o desacato que ele fizera ao Parlamento, recomendou leitura aos mais jovens depois de negar relação de causa e efeito entre estudo e exercício do cargo de presidente e, de quebra, sentiu-se à vontade para celebrar a Carta que negou-se a assinar – e, mais, negar o fato.

A memória real não é invocada para que se espere de Lula coerência. Ele está perfeitamente inserido na frase de Jobim e, do ponto de vista factual, importa mais que nunca a versão, desde que sirva ao discurso mais oportuno para o momento.

Por isso, ao longo de sua trajetória, produziu dezenas de versões, algumas contraditórias entre si, mas todas de efeito eleitoral eficaz – o que confirma seu diagnóstico de que o eleitor brasileiro não acompanha a política – razão, de resto, do êxito de Lula.

Mas ontem ele estava naqueles dias em que se supera. A comparação de Sarney a Ulysses em relação à Constituinte de 88, chega a ser uma aberração.

O então presidente da República jamais a quis, viu nela uma conspiração para encurtar o seu mandato (no que tinha razão e no que contou com a participação do PT) e cunhou a sentença de que ela tornaria o país ingovernável.

Tolerou-a, porque não havia outra saída, não sem antes tentar fazê-la exclusiva, ou seja, redigida por um grupo de notáveis cuja versão final seria submetida a votação pelo Congresso ordinário.

O mérito de Sarney é atribuído à sua tolerância com as investidas diárias contra seu governo, mas que pode ter outra tradução: submeteu-se ao Poder Legislativo, pois a outra porta de saída seria o estímulo aos militares para promover o retrocesso – o que, diga-se em seu favor, jamais pensou em fazer, mesmo que a oportunidade tenha batido à sua porta.

A versão de Lula para a recusa em assinar o texto constitucional é tão verdadeira quanto a de que possa algum dia ter apoiado a reforma da previdência no governo Fernando Henrique e que depois promoveu em sua gestão.

A diferença é que o primeiro presidente da Câmara no governo Lula, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), reconheceu que o seu partido boicotou a reforma no governo anterior porque se inseria na estratégia de chegar ao poder.

O PT assinou o texto constitucional depois de tê-lo recusado, assim como puniu com a expulsão, pouco tempo antes, três parlamentares que desobedeceram a ordem partidária para não participar do Colégio Eleitoral que  elegeu Tancredo Neves e inaugurou a nova ordem democrática que a Constituinte viria a consolidar.

Mas havia um script para ser cumprido ontem que começava por declarações destinadas a legitimar a sua inclusão e a de Sarney nas homenagens, seguia pelo afago ao ex-presidente para compensar a retirada do apoio ao seu candidato nas eleições maranhenses e finalizava com o desagravo à classe política, que a conveniência eleitoral aconselha mimar em momento de construção de alianças.

A única coerência na fala de Lula ontem foi a referência à importância de se valorizar a política como instrumento indissociável da democracia, o que não implica em avalizar o rumo que parlamentares eleitos dão aos seus mandatos, especialmente quando conspiram contra o interesse público.

Valorizar a política é diferente de aplaudir o mau político. Nesse aspecto, definitivamente, avacalham a política os que a usam como meio de enriquecimento pessoal, cuja manutenção determina a perpetuação no Poder, projeto hegemônico do PT que resultou no mensalão em seu governo.

O papel da imprensa é também o de fiscalizar o comportamento do homem público – aqui entendido aquele que lida com o dinheiro e o interesse nacional e que já tenta pegar carona na ação de artistas que emprestam seu prestígio à causa da restrição da liberdade de expressão, por motivação absolutamente pessoal e equivocada.