Lula: mensaleiros não eram de sua confiança, já Roberto Jefferson…

João Bosco Rabello

28 de abril de 2014 | 15h00

O que surpreende na entrevista do ex-presidente Lula a uma emissora de TV portuguesa não é a avaliação de que o julgamento do mensalão foi político. Mas a de que os políticos condenados e presos não eram de sua confiança.

Como não fez distinção entre os presos do PT e os demais, a declaração abrange o seu ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha e o ex-presidente do partido, José Genoíno.

Para quem chegou a afirmar que daria um cheque em branco ao delator do mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson, soa fora de contexto a revelação, que expõe mais ainda os ex-dirigentes do PT.

Foi só o que Lula acrescentou ao que já tinha dito sobre o episódio que poderia ter gerado um processo de impeachment em seu governo. Que não aconteceu porque não só negou conhecer o esquema, como o condenou diversas vezes, dizendo-se traído pelos companheiros.

Nesse ponto, há coerência entre a fala de hoje e a de ontem: não eram de confiança, diz ele, hoje, sobre aqueles que o traíram no governo, como afirmou à época do mensalão. Juntando os dois tempos, Lula foi traído por gente que não tinha a sua confiança e que hoje está presa. Não obstante, traição se traduzir por deslealdade daquele em quem se confiava.

Mas, segundo o ex-presidente, essa gente que não tinha a sua confiança, está presa por condenação de um julgamento 80% político. É curiosa a conta que concede 20% de acerto ao Supremo Tribunal Federal. Seria interessante se o ex-presidente dividisse com o distinto público o cálculo que o levou a tal divisão porcentual.

O cálculo rouba consistência à tese do julgamento injusto, pois que concede alguma razão ao STF, ainda que proporcionalmente muito abaixo da realidade. Onde acertou e onde errou o  STF ? Qualquer que seja a resposta de Lula, é explícito o reconhecimento de crime.

São algumas as hipóteses para a tese do ex-presidente. O STF acertou ao reconhecer o crime e errou na dosagem das penas. Mas o próprio STF já reviu essa parte, ao  revogar a pena por formação de quadrilha, o que não revogou as prisões.

Segunda hipótese: o STF teria dado  tratamento isonômico a réus com participações distintas no esquema de desvio de recursos. Por esse raciocínio, culpados são todos aqueles que não pertenciam ao PT, pois segundo o partido, José Dirceu de nada sabia, como Lula; José Genoíno assinou passivamente o empréstimo fraudulento, por uma credulidade romântica; João Paulo Cunha apenas mandou sacar um dinheiro conforme orientação partidária.

Como os demais réus não foram defendidos em nenhuma das teorias conspiratórias do PT, resta a conclusão de que só os do partido foram injustiçados. E tem-se aqui o inusitado: não houve o crime do qual o PT foi acusado, mas a prisão é justa para aqueles condenados solidariamente e que não pertencem ao partido.

A outra hipótese que pode passar pelo cálculo de Lula: não houve compra de votos de parlamentares, mas caixa-dois  de campanha, a segunda versão que deu ao caso, depois de abominá-lo como mensalão e dizer-se traído.

Aí residiria o cálculo de 80% e 20%. Crime, sim, mas de caixa-dois, não de assalto ao erário. O problema é que houve desvio de recursos públicos em dimensão jamais vista, dinheiro que financiou parlamentares integrantes de uma  base de sustentação igualmente inédita e de fidelidade canina.

Lula jogou, mais uma vez, para as calendas a sua versão do mensalão, ou a verdadeira, como afirma. Ele será esclarecido um dia, será recontado com a finalidade de mostrar que foi “um massacre para destruir o PT”.

A rigor, já foi recontada pelo PT algumas vezes, em versões tão diferentes quanto irreais. Mas o ex-presidente cumpre o papel de alimentar a estratégia de mostrar o julgamento como político ao sugerir um mistério ainda a ser desvendado.

Tudo sempre no futuro, que a Deus pertence, já dizia o ex-ministro da Justiça do regime militar, Armando Falcão.