Lula mantém tensão sobre Dilma

João Bosco Rabello

25 de fevereiro de 2014 | 22h05

A entrevista da presidente Dilma Rousseff em Bruxelas, entre outras avaliações, permitiu confirmar as divergências entre ela e o ex-presidente Lula, o que tira a questão do plano especulativo, sempre atribuído à imprensa, para o plano da informação.

O cacoete de atribuir à imprensa a invenção de toda informação que não convém vir a público está contida na declaração da presidente.

Ao tempo em que adverte os jornalistas de que são inúteis as tentativas de intrigá-la com o ex-presidente, confirma que dele diverge – a essência da informação antes negada.

A confirmação e a negação surgem juntas na mesma frase. “Não existem divergências entre eu e o presidente Lula a não ser as normais”, diz e desdiz a presidente.

Pois agora as divergências são oficiais – e seriam mesmo normais, não servissem de combustível para o movimento queremista que se alastra de dentro do PT, contamina toda a base aliada e se estende a parte expressiva do empresariado.

Lula teve a oportunidade de ser mais contundente no desmentido quanto à possibilidade de seu retorno. Não o fez publicamente ainda, desde que a presidente caiu vertiginosamente nas pesquisas após as manifestações de junho.

Seu silêncio alimentou as especulações e a versão de que sua volta como candidato está condicionada à performance eleitoral de Dilma, a ser acompanhada através das pesquisas de intenção de voto.

Ainda sem a recusa formal e contundente ao coro aliado de “volta Lula”, o ex-presidente se dispõe a percorrer fóruns nacionais e internacionais em socorro à presidente, pedindo crédito ao seu governo e confiança no revigoramento da economia.

É um périplo que não cumpre o objetivo – de trazer a confiança de volta -, e agrava a desconfiança por admitir explicitamente que a economia vai mal como sustentam os analistas e que as mudanças necessárias acontecerão num segundo mandato.

Ao mesmo tempo, Lula mantém sua imagem em movimento, exibindo vigor e contribuindo para que fique no ar a expectativa de seu retorno.

Este não parece mais possível sem grande desgaste para o capital político do ex-presidente, residindo aí o principal argumento para desacreditar em seu retorno.

Além do mais, a presidente Dilma mostrou habilidade na condução desse processo, deixando que a tentação pela volta de seu mentor sofresse o desgaste do tempo que, em política, é essencial.

A intenção de um golpe na sua candidatura, inegavelmente urdida dentro do PT, não prosperou no timing que o viabilizaria, à espera de uma queda abaixo de 40% na intenção de voto na presidente.

Caíram aprovação de governo e da própria Dilma, mas a dela parece ter se fixado no teto que oscila entre 43 e 45%, proibitivo para tirá-la do jogo.

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