Lula, de fiador a algoz da liberdade de imprensa

João Bosco Rabello

20 de setembro de 2010 | 14h34

Candidaturas que representam a continuidade, como a de Dilma Rousseff, são beneficiárias e vítimas dos resultados do governo do qual fez parte e pelo qual concorrem.

Dificilmente haveria candidatos dispostos a representar essa continuidade se o governo estivesse mal das pernas, impopular e de resultados negativos.

Em cenário oposto, caso da presente eleição, há disputa pelo lugar de candidato, algo que Lula impediu, com a força de uma popularidade que pertence a ele e não ao governo.

Ambos se confundem – Lula é o governo e o governo é Lula -, numa simbiose que não deixou espaço nem a opositores e nem aos aliados para desenvolverem projetos políticos próprios.

Impôs a candidata ao seu partido, assim como quer extirpar a oposição que lhe incomoda. A menção ao DEM foi específica, mas de caráter geral: a idéia é não ter oposição.

Nesse contexto, o conceito de oposição do Presidente se estende à imprensa, cujo senso crítico e atuação independente o fizeram compará-la a um partido político.

Ato falho que exibe novamente a incapacidade de conviver com a crítica e, mais que isso, com a fiscalização do governo, missão principal e irrevogável do jornalismo, respaldado pela Constituição.

No afã de eleger a qualquer custo sua candidata, Lula move uma campanha contra a mídia colecionando contradições como a de afirmar que as denúncias contra Erenice Guerra são falsas, mas demiti-la por causa delas.

O problema dessa estratégia de empurrar para depois das eleições as investigações – em alguns casos, inócuas, pelo que já veio à tona -, é que elas se estenderão pelo futuro governo, eleitos Dilma ou Serra.

No primeiro caso, pelo trabalho e pressão da imprensa, já que é de se prever a continuidade não só do governo, mas da intenção de varrer para debaixo do tapete os escândalos.

Um eventual governo Dilma começará pelo desdobramento dessas investigações, porque a eleição terá sido um breve intervalo num projeto do qual ela fez parte no olho do furacão dos escândalos – a Casa Civil.

É esse inevitável e breve futuro que explica a adesão de Lula ao conteúdo da famigerada Confecom, de controle social da mídia e bobagens do gênero, ao qual se referiu como fábrica de utopias, ou algo que o valha, quando lhe convinha exibir controle sobre seu partido.

O direito à continuidade é legítimo, embora o presidente da República tenha ultrapassado todos os limites do bom senso para atingir esse fim.

O difícil é pretender ser a continuidade apenas do que lhe favorece. A candidatura de Dilma Rousseff quer os bônus do governo que representa, sem os ônus.

Ainda que para isso, seja necessário extirpar toda e qualquer crítica – da oposição à imprensa.

O papel de formador de opinião já é exclusividade presidencial, segundo recente discurso do cabo eleitoral Lula.

O sonho é passar à consolidação de uma opinião única – toda aquela que for considerada jornalística segundo os critérios de conselhos como o proposto pelo PT e defendido por José Dirceu como antídoto ao “excesso de liberdade”.

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