Lula apoiou Senado de “má qualidade” que não deseja para a sua candidata

Lula apoiou Senado de “má qualidade” que não deseja para a sua candidata

João Bosco Rabello

04 de agosto de 2010 | 19h05

O rancor da derrota da CPMF no Senado fez o presidente Lula estender o episódio – do qual não deixou de falar desde então – à campanha eleitoral.

E desejou à sua candidata, Dilma Rousseff a sorte de um Senado com mais qualidade, se eleita (a ressalva condicional é do jornalista, porque o cenário de derrota não lhe passa pela cabeça, como não passava na votação do imposto).

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Cobertura de Lula a Sarney abrandou a temperatura de uma crise sem precedentes que levou à demissão do diretor-geral, Agaciel Maia. Foto: André Dusek/AE – 23.09.2009

À parte o fato de a revogação da CPMF só ter sido possível com o apoio de governistas, a menção à má qualidade do Senado omite a contribuição que para ela deu o próprio presidente, ao sustentar políticamente a cúpula da Casa, então flagrada em atos secretos e outros desvios de conduta.

Poucas vezes no curso de seu mandato Lula empenhou-se tanto – e pessoalmente – na sustentação a lideranças que escaparam da cassação graças ao seu apoio – entre as quais, os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), ex-presidente e presidente da Casa respectivamente.

A cobertura a Sarney abrandou a temperatura de uma crise sem precedentes que levou à demissão do diretor-geral, Agaciel Maia – não por vontade do presidente da Casa, mas para evitar a sua própria queda do cargo.

A crise expôs as vísceras do Senado e de seu comando, trazendo à tona dezenas de casos de nepotismo, tráfico de influência, desvios de recursos, contratações ilegais, sinecuras, todos com participação da direção ou com seu aval.

Ninguém há de discordar, diante de tanta exposição de erros, com o diagnóstico de má qualidade feito pelo presidente. Mas é inevitável lembrar que a Casa teve seu apoio explícito no momento mais desmoralizante de sua história recente.

No curso desses acontecimentos, o presidente José Sarney beneficiou-se de uma censura prévia imposta pela Justiça ao jornal O Estado de S.Paulo (que já dura um ano) a pedido de seu filho, o empresário Fernando Sarney, investigado pela Polícia Federal.

O jornal foi obrigado a deixar de publicar qualquer notícia referente à operação Boi Barrica, após ter divulgado o conteúdo de escutas autorizadas pela Justiça, nas quais, para além dos negócios suspeitos do empresário, estavam registradas passagens em que a família, com aval e participação do patrono, Sarney, indicava e ocupava cargos e desfrutava dos serviços e dos servidores públicos.

Toda essa “má qualidade” teve o apoio explícito do presidente da República, que hoje a identifica no único momento em que ela esteve ausente: na votação que eliminou um imposto a mais num País que é recordista mundial na categoria.

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