Língua ferina… e cara!

Língua ferina… e cara!

João Bosco Rabello

12 de dezembro de 2009 | 08h00

Não obstante seu anunciado esforço por mais moderação nos discursos e declarações, o deputado Ciro Gomes (PPS-CE),  parece ter ainda uma etapa de acertos de contas com episódios passados. Nas preliminares da campanha eleitoral,  a 6ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal acolheu anteontem recurso do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, que cobra indenização por danos morais. Ainda cabe recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

"Aproveitando a minha metodologia eu acho que o Fernando Henrique não rouba, mas deixa roubar". Foto: Dida Sampaio/AE

A condenação, no valor de R$ 3 mil, obriga Ciro a responder, pecuniariamente, a uma declaração feita há nove anos, quando chamou o dirigente tucano de “corrupto”. Numa entrevista publicada na Folha de S. Paulo, em julho de 2000, o ex-ministro afirmava que o então presidente Fernando Henrique Cardoso “não rouba, mas deixa roubar”. Na mesma matéria, ele classificava o ex-presidente da República de “omisso” em relação às denúncias de corrupção envolvendo o seu governo e nominava o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge.

“Mas não sou besta. Esse Eduardo Jorge é corrupto e trabalhava na ante-sala do presidente. É omissão. Eu sempre defendi que a missão de um político sério é não roubar e não deixar roubar”, disse então.  “Aproveitando a minha metodologia eu acho que o Fernando Henrique não rouba, mas deixa roubar”.

À época, Eduardo Jorge o acusou de subir o tom das declarações para ganhar espaço na mídia, já que iria disputar a Presidência da República em 2002.

Ciro tem  outras ações judiciais provocadas pelo destempero verbal que ele próprio já reconheceu como um problema a superar. Uma das primeiras ações a que respondeu remonta a 1997, quando chamou de “corrupto” o ex-ministro da Saúde Henrique Santillo, durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Em 2008, ele se viu condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a indenizar a família do ex-ministro e ex-governador de Goiás, morto em 2002, no valor de R$ 266 mil. Ciro recorreu e aguarda o pronunciamento final do STJ sobre o caso.

Dois anos depois,  em 1999,  ele se viu ameaçado de processo pelo ex-presidente Fernando Collor, a quem chamou de “playboy cheirador de cocaína”. Quem respondeu foi presidente do PRTB, Levy Fidelix, legenda à qual Collor era filiado – e pela qual se elegeu senador em 2006 – que declarou que o ex-presidente o processaria por calúnia e difamação.

Em 2001, o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro moveu ação penal contra Ciro por suposto crime de difamação contra o então presidente Fernando Henrique. Em julho daquele ano, Ciro declarou em entrevista ao Jornal Nacional que o tucano “levou a corrupção ao centro do poder no Brasil”.

No ano passado, ele teve a conta-salário bloqueada pela Justiça paulista para garantir o pagamento de uma indenização por danos morais ao governador José Serra (PSDB), fixada em cem salários mínimos. A condenação refere-se a uma declaração feita durante a campanha presidencial de 2002 em que se referiu a Serra, seu adversário na disputa, como “o candidato dos grandes negócios e negociatas”.

No início do ano, proferiu uma de suas declarações mais bombásticas. Deu-se em meio ao escândalo da farra das passagens aéreas que colocou o Congresso no centro da cena política.

Em conversa com jornalistas no plenário da Câmara, Ciro negou a acusação de emitir passagens de sua cota pessoal para levar sua mãe a Nova York, nos Estados Unidos. “Trata-se de leviana e grosseira mentira aquilo que foi feito, envolvendo pelo menos o nome de minha mãe, octogenária”, declarou, em tom ameno.

No entanto, em resposta a jornalistas que creditaram a informação ao Ministério Público, ele vociferou: “Ministério Público é o c…! Não tenho medo de ninguém. Da imprensa, de deputados. Pode escrever o c…aí”,  pediu. E  ao criticar as medidas anunciadas para regulamentar o uso das passagens, ampliou os impropérios aos colegas de Parlamento: “Até ontem era tudo [o uso de passagens] lícito, então por que mudou? É um bando de babacas”, afirmou.

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