Governo reduz risco na Câmara, mas crise com PMDB continua

João Bosco Rabello

18 Março 2014 | 14h01

Ao concluir a reforma ministerial com a posse ontem dos novos ministros, a presidente Dilma Rousseff  deu o desenho final no confronto com o PMDB, isolando não o líder do partido na Câmara, mas com ele, toda a bancada.

Dilma fez a opção pelo atendimento aos partidos que integraram por curto espaço de tempo o chamado “blocão” que, além do PMDB incluiu PP, PR, Pros, PDT, e PTB , para ficar nos que têm real influência no processo legislativo.

Da primeira tentativa de isolar Cunha, o governo passou à ação de isolar a bancada por ele liderada, o que não é suficiente para lhe garantir a tranquilidade já desfrutada no Congresso e- mais importante – o engajamento do partido na campanha presidencial.

Consequência do erro de cálculo quanto à dimensão da liderança de Cunha, ou reflexo tardio da realidade, a escolha final do Planalto mantém o conflito com o PMDB, motivado pela determinação do PT de rever as alianças com o rival nas bases estabelecidas na eleição de 2010.

O movimento encerrado ontem por Dilma, com a posse dos novos ministros mais esvaziada dos últimos tempos, foi possível graças ao atendimento pleno das demandas desses partidos que deixam o “blocão”, que em nada diferem das apresentadas pelo PMDB e negadas pelo governo – à exceção das alianças regionais que ficam fora desse contexto.

O atendimento foi tão pleno que o PP o considerou uma surpresa, a ponto de concluir que pediu pouco. Mais exigisse, mais lhe seria dado, sugerindo que o partido subestimou o grau de necessidade do governo para enfrentar a reação do PMDB.

O cenário reafirma a origem do problema com o PMDB na disputa regional, já que a cooptação dos partidos que deixam o “blocão” se deu com emendas e cargos – as duas moedas de troca que sintetizam as bases fisiológicas que sustentam o chamado presidencialismo de coalizão no Brasil.

Elementar concluir que ao abrir mão desse pacote fisiológico que estigmatiza o partido, o PMDB liderado por Cunha – e que expressa o sentimento majoritário do partido – enxerga nele pouca serventia a sete meses da eleição – ou, pelo menos, papel secundário diante do principal:  a preservação de sua força regional.

Nas contas do Planalto foi resgatada a superioridade numérica do governo na Câmara, suprimido ao PMDB o apoio do bloco. A rebeldia não é mais da base aliada, mas do PMDB, uma parte dela.

De fato, a conta existe, mas ainda é de risco. O governo não se sente seguro para enfrentar a votação do Marco Civil da Internet, embora manifeste disposição de votá-lo amanhã. Passará o dia de hoje em cálculos para ver a consistência da operação que implodiu o bloco rebelde.

De pronto, sente-se seguro para manter o pedido de urgência para o projeto, mas outros fatores extra-rebeldia influem sobre os parlamentares. O principal deles, a neutralidade da rede – contestada pelas teles -, o ponto de resistência alimentado por Cunha e que extrapola o território peemedebista.

Para o governo, ao risco é melhor deixar para depois a votação do projeto. Mas, se houver a certeza de sua aprovação, ganhará mais do que ela representa: terá a primeira vitória sobre Cunha, que tem na resistência ao projeto sua motivação pessoal no conflito aberto com o Planalto.

A decisão de pôr em votação o Marco Civil, portanto, indicará a segurança do governo em relação à Câmara, após o resgate dos aliados não peemedebistas que integravam o bloco rebelde.

Mas o contexto eleitoral que sustenta a crise com o PMDB dificilmente será revertido. Haverá votos pelo fim da aliança na convenção nacional do partido que, em menor ou maior número, justificará aos descontentes uma atitude burocrática na campanha presidencial em favor da reeleição de Dilma.

Para esses, soa como o canto do rouxinol a frase mais recente do candidato socialista Eduardo Campos, de que “o país não aguenta mais quatro anos de Dilma”.