Governo continua falando sozinho

João Bosco Rabello

31 de julho de 2013 | 21h00

A forma atabalhoada como o governo reagiu às manifestações de rua continua produzindo seus efeitos negativos. Depois da Constituinte, do natimorto plebiscito e da reforma política que não sai antes de 2014, chegou a vez do recuo no programa Mais Médicos, que começa a ser revisto antes mesmo de tramitar no Legislativo.

Só mesmo uma desorientação geral pode explicar a ampliação do curso de medicina em dois anos, da qual o governo hoje desistiu, sem prévia consulta à classe profissional afetada diretamente pela medida. A medida provisória que encaminha a proposta promete tramitação conflitada e, pior, simultânea a outros projetos na área da saúde que tiram o sono do governo.

Caso do projeto de iniciativa popular com apoio de 1,7 milhão de assinaturas, destinando 10% da receita da União para o setor, concebido no vácuo deixado pelos poderes Executivo e Legislativo, às turras por conta do conflito na base de sustentação do governo, que tem causa, em grande parte campanha eleitoral antecipada.

Não obstante, o Planalto continua exibindo otimismo com base em projeções para o segundo semestre que não inspiram confiança no mercado investidor e o mantém cético quanto à reversão do cenário econômico negativo. Enquanto não recuperar essa confiança, o governo não terá investimentos necessários para romper a estagnação na infraestrutura e a consequente melhora na prestação de serviços, principal motivação dos protestos de junho.

Ainda que investimentos não gerem resultados imediatos, a simples expectativa de reação já melhora o humor do contribuinte, ainda submetido a um debate sobre temas que não respondem pela irritação demonstrada nas ruas. É a expectativa positiva também que movimenta o investidor, mas governo não a produz. Ao contrário, reafirma a decisão de não mudar nada.

Chega ao grau da tolice responder às críticas com as surradas comparações com o governo Fernando Henrique, encerrado há uma década, realimentando uma polaridade eleitoral que já fechou seu ciclo, como demonstram as quatro candidaturas postas para 2014, até agora. A única ideologia do investidor é o lucro, legítimo diga-se,  não importando a inflação do passado, mas a do presente.

A presidente Dilma Rousseff, no entanto, recorreu a esse expediente na recente entrevista à Folha de S.Paulo, possivelmente contaminada pelo ambiente eleitoral instalado desde que antecipou a campanha pela sua reeleição. Respondeu para adversários e eleitores, mas não para o mercado e os investidores, que deveriam ser os alvos prioritários de seu governo, paralisado pela desconfiança de que tratou o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Esse é um episódio que ilustra o cenário que o próprio governo desenhou ao antecipar o processo sucessório. A presidente governa com duas pautas – a do mandato atual e a do futuro, ainda por conquistar, agora em circunstâncias bem mais difíceis – e com viés de piora.

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