Governo constrói passivo de denúncias sem respostas

João Bosco Rabello

30 Janeiro 2014 | 16h00

O governo convive perigosamente com denúncias que podem gerar custo político mais adiante, numa indiferença calculada, reservando-lhes o arquivo destinado a guardar tudo aquilo que se põe na conta de “coisas da oposição”. Não faz a prudente distinção entre casos que tendem a desaparecer do noticiário pela inconsistência e aqueles que permanecem porque foram mal ou não respondidos.

A exploração política de casos desabonadores, não os tornam mentirosos e nem alvo de anistia automática. Significa dizer que denúncias precisam ser respondidas – com investigação, se for o caso, ou com repúdio e providências se constatadas a sua veracidade de forma imediata. Ignorá-las não costuma ser bom negócio.

Há uma olhar de paisagem sobre dois casos que envolvem um ministro atual, um futuro e um recente ex-, candidato ao governo de São Paulo. Manoel Dias, do Trabalho, Arthur Chioro, dado como sucessor de Alexandre Padilha, na Saúde, e o próprio Padilha, devem mais do que disseram até aqui sobre o que deles veio a público.

Chioro é investigado pelo Ministério Público por suposta improbidade administrativa, materializada na dupla condição de secretário de Saúde de São Bernardo do Campo e proprietário de empresa prestadora de serviços na área de Saúde, a prefeituras do PT, ao mesmo tempo.

Ou seja, autoridade pública e fornecedor, num claro conflito de interesses, que o governo federal e seu indicado insistem em tratar como problema removido, passando uma borracha no que ficou para trás.

Sabe-se agora pela repórter Fernanda Odila, da Folha de São Paulo, que Padilha incorreu no mesmo erro, embora com algumas diferenças de forma. Ele não é proprietário de nenhuma empresa prestadora de serviços ao governo, pelo que se sabe, mas conviveu , pelo menos desde 2011, com o conflito de interesse configurado na contratação pelo ministério da Saúde, de empresa que tem seu pai, Anivaldo Padilha, como sócio e fundador.

Às vésperas de deixar o ministério, Padilha, o filho, assinou convênio no valor de R$ 199 mil, em favor da empresa de Padilha, o pai. E a única resposta de ambos é clássica combinação de declarações: “o fato de ser pai de Alexandre Padilha não pesou e nem influenciou na seleção de projetos”, diz o pai, como se a ele coubesse tal garantia, ou como se pudesse esperar do beneficiário declaração diferente.

“O convênio atendeu a critérios técnicos e o processo de análise seguiu regras estabelecidas pela administração pública”, diz o ministério. No final de 2013, a ONG de Padilha, pai, de nome tão estranho – Koinonia -, quanto o que aparenta ser a sua finalidade – “Presença Ecumênica e Serviço” -, assinou convênio com o ministério da Justiça, de R$ 262 mil, para documentário, site e livro sobre a participação protestante na luta contra a ditadura militar, em um questionável envolvimento de dinheiro público para propaganda de uma corrente religiosa.

O presidente da ONG do Padilha, pai, se autodefine como “ator político do movimento ecumênico que presta serviços ao movimento social”. É alarmante como se precisa de muito pouco para se obter recursos públicos em favor de uma ONG no Brasil.

Foi através de ONGs também que outros escândalos pipocaram no governo Dilma e defenestraram ministros, entre os quais o do Trabalho, Carlos Lupi, que volta agora à cena acusado por uma empresária de receber propina.

Denúncia extensiva ao seu sucessor e correligionário, Manoel Dias, ainda no posto. A empresária, Ana Aquino, conta um enredo verossímil porque confirma um esquema de venda de registros de novos sindicatos que já derrubara Lupi.

Não basta a ênfase de Lupi para desqualificar a denunciante, porque a falta de credibilidade que acusa nela, lhe falta desde que deixou a Pasta, na tão famosa quanto fictícia faxina dos primeiros sete meses do governo Dilma.