Pasadena é escândalo grave

João Bosco Rabello

21 de março de 2014 | 16h00

Não será por falta de munição, ofertada pelo próprio governo, que a oposição permanecerá em desvantagem nas pesquisas que sondam a intenção de voto dos eleitores. Além das dificuldades na economia, a presidente Dilma Rousseff enfrenta uma agenda negativa dentro e fora do Congresso.

Se a oposição conseguirá capitalizar essa trajetória errática do governo só será possível saber, com certeza, quando a propaganda eleitoral gratuita começar na televisão e no rádio. Até aqui os números indicam que os erros do governo não se transformaram em dividendos para a oposição.

Menos, porém, pela falta de consistência das críticas e mais pela pouca visibilidade dos candidatos de oposição que não são conhecidos por um porcentual expressivo da população. Por isso, é temerário afirmar que o cenário prosseguirá como registrou a recente pesquisa do Ibope, antes de se medir os efeitos da propaganda gratuita.

O governo não para de oferecer matéria-prima para a oposição. Talvez como poucas vezes antes se tenha visto em véspera de eleição. A sucessão de derrotas na Câmara, perfeitamente evitável, ocorre em meio a uma crise energética insistentemente negada e, agora, com operações suspeitíssimas na Petrobrás a demonstrar que são problemas interligados.

São conteúdos fortes agravados pela intervenção direta e precipitada da presidente Dilma Rousseff, que consolidou a leitura de que faz política com o fígado. O conflito com o Congresso tem essa característica, assim como a versão de próprio punho para a compra da refinaria de Pasadena, que empurra a responsabilidade para a diretoria da Petrobrás.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pode ter razões para não defender uma CPI da Petrobrás, provavelmente pela preservação da empresa, mas, a rigor, é um escândalo que justificaria plenamente a iniciativa defendida pelo candidato de seu partido, Aécio Neves (MG).

O caso de Pasadena não é pequeno e nem desimportante. É gravíssimo. Não há leitura que consiga contornar o fato de que a operação de compra tem o ingrediente da corrupção desde que se pagou por metade de um bem oito vezes e meia seu valor de compra de um ano antes.

Para adquiri-lo 100% por mais U$ 820 milhões, perfazendo um custo total de U$ 1.18 bilhão – algo em torno de 28 vezes menos do que custara ao vendedor. Nem o mais leigo em comércio seria capaz de produzir uma conta que inverte toda a lógica comercial, pela qual se tenta tirar o melhor proveito na obtenção de qualquer coisa.

Tudo indica, portanto, que tal inversão aritmética foi trabalho de profissionais em proveito próprio ou de terceiros, ou ainda de esquema que permanece encoberto. Além do desenho da operação, reforça essa ideia a presunção de que a presidente Dilma Rousseff reagiu em defesa pessoal acusando a Petrobrás pelo erro.

Não é uma acusação qualquer também: o que a presidente disse é que foi ludibriada pela apresentação de um texto que omitia as cláusulas de contrato que, mais tarde, seriam responsáveis pelos prejuízos da Petrobrás.

Como o presidente da Petrobrás à época, Sérgio Gabrielli, diz que conhecia as cláusulas do prejuízo, a acusação da presidente o alcança, como a toda a diretoria da empresa de então. Para se chegar a esse ponto é preciso sentir o cheiro de coisa ruim no ar. Livrar-se de culpa antes que se descubra a origem do mau cheiro.

Nesse contexto, vale observar que a presidente Dilma preferiu sacrificar a sua imagem de gestora a abraçar a versão da Petrobrás, igualmente insustentável, de que a compra da refinaria, nos termos em que se consumou, era um bom negócio que deu errado.

Do ponto de vista político, por ora, antes que os desdobramentos desse caso ocorram, o que se pode dizer é que o governo está na defensiva, levado a explicar-se diariamente, o que em política nunca é bom.