Gestos do governo não revertem desconfiança dos investidores

João Bosco Rabello

21 de agosto de 2013 | 17h00

A indagação da hora é sobre a razão pela qual não se nota reação positiva dos investidores às sinalizações de mudanças na condução da gestão econômica, combinada com o esforço de aproximação com o Congresso Nacional. O ponto final na contabilidade criativa e o retorno Banco Central à cena, aliado ao compromisso de combate à inflação, teoricamente deveriam gerar novas expectativas.

De fato, o governo tem dado visibilidade a esses movimentos, na tentativa de resgatar a confiança nos dois universos, abalada pela flexibilização do modelo econômico  implantado no governo Fernando Henrique Cardoso – e mantido por Lula -, e pela abstinência política imposta ao Legislativo nos tempos de aprovação alta da presidente Dilma Rousseff.

Possivelmente haverá mais de uma explicação para o que o ex-ministro Delfim Netto vem chamando de “dramático desânimo da economia nacional”. Uma delas, seguramente, está na própria causa desse processo, que é a confiança. Como se sabe, uma vez quebrada, sua reconquista, quando obtida, é habitualmente lenta por envolver fatores subjetivos. A tarefa torna-se mais dura em um ambiente desfavorável em que os números desafiam as previsões do governo.

Não por outra razão, decisões são precedidas de avaliação cautelosa de suas consequências, porque uma escolha errada, por mais bem intencionada, pode desfazer toda uma história de êxito. Desfazer é rápido, refazer é demorado e difícil. Se às escolhas se soma um comportamento errático, como o do governo na gestão econômica, tem-se aí outro componente que é a desconfiança não só ideológica, mas também quanto à competência.

Nesse contexto, talvez seja cedo demais para esperar a confirmação de expectativas, ou talvez elas não cheguem mais nesse mandato. Entre os sinais emitidos pelo governo – e destacados por Delfim – pode estar faltando o das mudanças de perfis na área econômica, especialmente depois da fase da contabilidade criativa, cujos mentores e executores permanecem em postos estratégicos.

O cenário de campanha eleitoral antecipada é também ruim para o governo, porque divide as atenções do empresariado, que começa a ouvir as propostas dos candidatos já em campo e a fazer a comparação inevitável com o presente. Isso reforça o desejo de mudança e faz 2014 parecer mais próximo, contribuindo para a permanência do desânimo reclamado pelo ex-ministro.

É notória a inserção nos ambientes que conduzem a economia dos candidatos Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), no exercício de convencimento em relação aos seus projetos. Porém, mais que isso, ambos reforçam as críticas à gestão econômica, onde o governador leva a vantagem de relatar experiências vividas como aliado, antes da fase dissidente.

A movimentação das candidaturas nesse campo, no qual se inseriu também Marina Silva ao se socorrer de economistas notáveis, impõe o dobro de esforço à presidente já também completamente mergulhada na campanha. Nesse aspecto pode-se dizer que a gestão e a campanha se tornaram uma coisa só, com a primeira gerando os conteúdos da segunda, vantagem natural de governos, mas nem por isso saudável sob qualquer ponto de vista – seja o da contaminação política da máquina pública, seja o da queda de eficiência pela submissão às conveniências eleitorais.

Pode-se dizer que as relações com o Congresso tiveram a temperatura reduzida, mas o tamanho das dificuldades permanece o mesmo, porque as causas são as mesmas e permanecem: a queda da aprovação da presidente e a anemia econômica que determinaram a oportunidade do Congresso restabelecer os mecanismos essenciais para resgatar seu poder político.

O orçamento impositivo, as novas regras para votação de vetos presidenciais (antes o prazo de 30 dias para votação começava com a leitura do veto e agora passa a contar da chegada do mesmo ao Congresso) e a mudanças na tramitação das Medidas Provisórias retiram do Executivo o poder impositivo e o obriga a negociar diariamente com o Legislativo, para bem da política e do amadurecimento das decisões.

É um cenário consolidado que não deve se alterar até as eleições de 2014, mais difícil para o governo, porém sem riscos à estabilidade e à governabilidade –  pelo que se pode avaliar até aqui.

 

 

 

 

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