Foster e Cerveró mantêm suspeitas sobre a Petrobrás

João Bosco Rabello

17 de abril de 2014 | 11h36

Somados, os depoimentos do ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró, e o da presidente da empresa, Graça Foster, mantêm a contradição essencial que permeia a crise gerada pela compra da refinaria de Pasadena.

Graça confirmou a versão presidencial de que a sonegação  de cláusulas estratégicas levaram à aprovação pelo Conselho do que ela considerou “um inquestionável mau negócio”.  Cerveró prefere chamar de “negócio inconcluso”.

Mas ambos admitem, cada um a seu modo, que houve prejuízo. Graça, de forma explícita, o quantifica: pouco mais de 500 milhões de dólares. Cerveró, que é apenas um registro contábil usual.

Cerveró sustenta, porém, que a documentação – mais de 400 páginas – esteve sempre à disposição do Conselho, assim como o resumo do negócio, sendo este uma opção que o Conselho preferiu.

O depoimento de Cerveró é inconsistente em diversos pontos, ao contrário daquele prestado por Foster, caracterizado pela assertividade das informações, em que pese seu conteúdo devastador para a gestão anterior.

Cerveró atribui o fracasso do projeto à sua interrupção e, esta, a mudanças no mercado do petróleo. O que não o absolve e nem à diretoria da empresa à época. Afinal, para projetar cenários e riscos é que existem os estudos preliminares que orientam as decisões no ambiente de negócios.

Afirma que a documentação esteve à disposição do Conselho e minimiza as cláusulas de saída do negócio, e a Marlim, que garante lucro do vendedor mesmo na hipótese de prejuízo do comprador.

A omissão de ambas ao Conselho permanece como fato real, respaldando a versão da presidente Dilma para a sua chancela ao negócio. O que mantém a suspeita de condução política – e desleal -, do projeto pelos seus principais negociadores.

Se o objetivo da CPI proposta pela oposição é  desvendar esse ponto da questão – a prevalência de uma decisão política sobre a técnica em uma operação comercial que deu prejuízo à Petrobrás,  Foster e Cerveró a legitimam.

A partir daí, o raciocínio é lógico: se foi motivação política é possível que o projeto – e outros ainda não investigados – seja a ponta de um esquema de financiamento político com recursos públicos.

O depoimento de Foster não é importante pela avaliação de seu desempenho pessoal, mas pela clareza com que admitiu que a empresa errou, seu conselho foi induzido a fazer um mau negócio e que a responsabilidade é da diretoria anterior.

A síntese de seu depoimento indica um distanciamento entre Dilma e seu antecessor e padrinho, Lula, que gostaria de outra condução para o caso. A posição da presidente vincula a gestão do antecessor à criticada politização da Petrobrás.

Afinal, Sérgio Gabrielli, ex-presidente da empresa, era indicação de Lula, por ele foi sustentado, e, por uma influência em cadeia, Paulo Roberto Costa, preso pela Polícia Federal, exercia uma diretoria da Petrobrás.

Nada disso garante, porém, que haverá a CPI, especialmente nos termos exclusivos propostos pela oposição. O dano político e eleitoral, no entanto, não só é irreversível, como contínuo.

O esforço do governo é prejudicado pelo teor da missão que o desafia, a de controlar as informações sobre o episódio e seus desdobramentos na base aliada. Na era da informação, esse controle é impossível.