Foster adota versão de Dilma para Pasadena e deixa mal antecessores

João Bosco Rabello

15 de abril de 2014 | 17h21

Enquanto a movimentação dos candidatos de oposição segue o roteiro previsto, no âmbito da candidatura oficial o crescimento da inflação e o escândalo da Petrobrás fogem ao controle do governo.

Como já foi dito nesse espaço, a CPI se impõe como opção investigativa legítima, tais os pontos obscuros do episódio e a condição de sigilo que orienta a tramitação dos inquéritos em andamento.

Mas se não lograr sua instalação, como quer a oposição, o empenho do governo em evitá-la já produz dano eleitoral imprevisto nos planos traçados para a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Nesse contexto se inserem os movimentos do governo nas últimas 48 horas, resumido à defesa da Petrobrás, como empresa exemplar, alvo de ataques impatrióticos da oposição, e o depoimento da presidente da empresa, Graça Foster no Senado.

A primeira ação é risível, de tão velha e conhecida. Culpem-se os mensageiros da má notícia de que a empresa está sendo investigada por corrupção e os que, diante da notícia, cobram esclarecimentos.

No segundo caso, o depoimento de Foster tem um mérito: confirma a irregularidade da compra da refinaria de Pasadena em todos os aspectos que levaram à suspeita sobre a operação.

Graça Foster reafirma a versão da presidente Dilma de que foi um mau negócio e que os conselheiros não foram apresentados a todas as informações sobre a compra. Não se deu ao trabalho de explicar o que mudou sua convicção inicial que a levou a afirmar que fora um bom negócio “à época”.

De qualquer forma, a presidente da Petrobrás responsabiliza claramente a gestão anterior, de Sérgio Gabrielli, no governo Lula, pela aprovação da compra e chega a dizer que não o percebe hoje empolgado com a operação.

Trocando em miúdos, a direção atual da Petrobrás considera Pasadena um mau negócio de responsabilidade de seus antecessores, entre os quais, Paulo Roberto Costa, preso, e Nestor Cerveró, incompreensivelmente mantido em cargo estratégico financeiro.

Foster, portanto, surpreende apenas por confirmar o malfeito, mas seu depoimento não avança sobre o que já se sabia. O que reafirma a necessidade da CPI, cujos instrumentos de investigação podem dar celeridade à apuração – e confiabilidade.

A presidente da Petrobrás garante que as apurações internas esclarecerão responsabilidades individuais e acha injusto penalizar Cerveró antes que a comissão interna levante todos os fatos. Mas não acha injusto que ele permaneça no cargo mesmo sob suspeição.

Foster depõe com a desenvoltura dos que se sabem inocentes, pois não fazia parte da diretoria da empresa à época das negociações e nem delas participou. Trabalha agora em cima da obra feita para apurar responsabilidades.

Assim como a presidente Dilma, esta lograda na sua boa fé, segundo seu depoimento ao jornal O Estado de S. Paulo, que reativou as suspeitas sobre a compra da refinaria, já polemizada anteriormente.

Ambas se põem fora da cena do mau negócio que diagnosticam. E, por consequência, vinculam a este seus antecessores – o ex-presidente Lula, em cujo governo ocorreu a operação, e Sérgio Gabrielli, que presidia a empresa.

Ambas permitiram que circulassem as versões, sem objeção de qualquer espécie, de que “engoliam” o ex-diretor Paulo Roberto Costa, condutor da negociação, e Nestor Cerveró, mantidos portanto pela gestão Lula.

São, na linguagem política, dois “sapos” empurrados goela abaixo da então chefe da Casa Civil de Lula e da diretora que ela fez presidente em sua gestão, Graça Foster, que ainda precisou de um bom tempo para remover Costa.

Sérgio Gabrielli sai tosquiado do depoimento de Foster, que deixa no ar a expectativa de uma apuração que concluirá, provavelmente, responsabilizando a gestão anterior – de Lula, no governo, e Gabrielli, na empresa, pelos erros produzidos.

É o que se chama de politização da empresa. Um mau negócio imposto por razões políticas, aprovado à base de omissão de dados. Melhor seria dizer tratar-se de um mau negócio motivado por razões partidárias.

A distinção se faz oportuna desde que o senador Ignácio Arruda (PC do B-CE), tentou dar naturalidade à condução política, ao defini-la como o método de descentralizar as ações da empresa, distribuindo-a de forma mais equitativa pelo país, o que o mercado não faria por iniciativa própria.

O senador sabe que não é essa política que se condena, mas aquela que deforma a governança da empresa, impondo ao seu quadro técnico decisões prejudiciais  para favorecer interesses partidários.

Foi Ignácio Arruda também quem cobrou fato novo que justificasse nova CPI dois anos depois de uma análoga ter dado em nada. Esqueceu que o fato novo foi oferecido pela presidente da República ao acusar a direção da empresa de sonegar ao conselho informações decisivas que reprovariam a compra.

O depoimento de Graça Foster, ao não avançar em informações novas, confirmar que Pasadena foi um mau negócio aprovado pela omissão de informações essenciais e pedir que se aguarde o desfecho da apuração interna, manteve tudo onde está.

Menos a perspectiva de alguma celeridade nas investigações, que cumprem prazo de 45 dias, com uma Semana Santa e uma Copa do Mundo no meio, circunstâncias mais que favoráveis a uma prorrogação do prazo.

É o governo atuando para protelar os resultados e evitá-los na fase de campanha, evidenciando a prioridade eleitoral sobre o interesse público.