Fim de um ciclo militar

Fim de um ciclo militar

João Bosco Rabello

11 de fevereiro de 2010 | 06h00

A demissão do general Maynard Marques de Santa Rosa da chefia do Departamento de Pessoal do Exército reveste-se de importante simbolismo que torna secundária sua motivação disciplinar.

Jobim consolida poder civil nas Forças Armadas. Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr

Jobim consolida poder civil nas Forças Armadas. Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr

Uma década depois de sua criação e no sexto ministro de fora da caserna, pode-se dizer que o Ministério da Defesa consolida o processo que o inspirou, de submissão das Forças Armadas ao Poder Civil.

Não foi fácil, nem simples, mudar o conceito de independência arraigada nas Forças Armadas Brasileiras após duas décadas de ditadura, cujos estertores foram além da posse do primeiro governo civil, o de José Sarney, iniciado em 84.

Criado em 99 no governo de Fernando Henrique Cardoso, é mais um projeto que se consolida no governo atual, reforçando sua característica de continuidade, que o modelo econômico já comprovou.

À exceção do advogado Geraldo Quintão, nenhum antecessor de Jobim esquentou a cadeira por muito tempo. Todos caíram por rejeição da Tropa ou por acusações de irregularidades.

O primeiro deles, o senador Élcio Álvares, causou profunda irritação nos militares ao dar espaço de poder a uma mulher, a sua secretária pessoal. Logo, logo, trataram de pôr sob suspeita casos defendidos pelo seu escritório de advocacia no Espírito Santo.

Seu sucessor, Geraldo Quintão, ficou dois anos no cargo, mais por manter as decisões internas nas mãos dos militares do que por outros méritos.

Na sequência, o diplomata José Viegas também experimentou a rejeição. Foi apeado do cargo sob denúncia de favorecimento à Rússia na negociação da compra dos caças, que até hoje não se concluiu (a novela é antiga).

O vice-presidente José Alencar foi o segundo na gestão Lula e sua passagem, também breve, serviu apenas para acalmar os ânimos nas três Forças.

Foi sucedido pelo mais pífio de todos, Waldir Pires, catapultado pelo apagão da crise aérea.

Jobim fecha o ciclo com a implantação do orçamento único, centralização do planejamento e da decisão estratégica e comando efetivo da autoridade civil.

A manifestação pessoal do general Maynard, à revelia do seu comandante – embora por condenar o inoportuno e desnecessário Plano Nacional de Direitos Humanos -, tornou-se inevitável.

E materializou o fim de um ciclo militar na política.